Era uma vez um sonho

Ficha técnica


País


Sinopse

Filho de uma mãe solteira instável, que vive às voltas com a dependência química, o garoto J.D. procura a avó excêntrica, Mamaw, para um certo apoio material e afetivo. Enquanto isso, sonha com um futuro como advogado,


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

28/12/2020

Adaptando o bestseller autobiográfico de J.D.Vance, publicado em 2016, o diretor Ron Howard investe com mão pesada no melodrama para contar a saga de um pequeno heroi interiorano da classe trabalhadora, que venceu os desafios de um lar economicamente precário e emocionalmente instável e conseguiu formar-se advogado na prestigiosa Universidade de Yale. O típico resgate do bom e velho sonho americano, portanto. Pena que os tempos mudaram e a fórmula simplificadora e açucarada adotada por Howard não desça tão fácil pela garganta, apesar do inegável atrativo de um elenco talentoso, infelizmente, não aproveitado a contento.
 
A adolescência de J.D. (Owen Asztalos) é um bocado turbulenta. Tímido e sensível, ele tem que encarar uma mãe, Beverly (Amy Adams), cada vez mais dependente de analgésicos, depois, de heroína, o que torna seu comportamento descontrolado e violento. A irmã dele, Lindsay (Haley Bennett), escapa para a casa do namorado o tempo todo. Resta a avó, Mamaw (Glenn Close), que faz o que pode para atenuar o drama, mas tem suas próprias limitações.
 
É fácil empatizar com J.D., neste período ou na fase mais adulta, quando é interpretado por Gabriel Basso e se desdobra entre empregos enquanto cursa direito em Yale. Mas o que falta e muito por aqui é matizar mais estes personagens em função de um contexto social mais nítido. Extirpando de sua história aspectos mais polêmicos da existência desta família pobre, Howard nos priva de um drama mais denso e complexo. Não se consegue enxergar que país é esse que abriga esta família empobrecida, que tem que lutar sozinha contra a falta de assistência médica acessível, de educação pública de qualidade e de políticas públicas de apoio. É como se ela existisse no éter, no espaço.
 
Há uma história de sucesso envolvida e é só nisso que o diretor está interessado. Portanto, gastará todo o tempo de sua narrativa expondo os sofrimentos de seu protagonista em duas fases de sua vida, retratando sua mãe quase sempre nos piores momentos, no auge da histeria. Ao fazê-lo, contribui para desumanizar a personagem vivida por Amy Adams, uma atriz talentosa que daria conta de várias outras nuances que à sua Beverly não é permitido alcançar. O mesmo se diga da Mamaw de Glenn Close, por demais reduzida a uma caracterização física quase caricata, com peruca e uma manqueira na perna. A própria jovem Haley Bennett, que brilhou em Swallow, aqui fica reduzida a uma figura apagada, unilateral.
 
Evidentemente, tudo foi sacrificado para que brilhasse a estrela de J.D., vencendo as atribulações e salvando a si mesmo, contra tudo e contra todos - o que, em alguns momentos, parece a ponto de ser perdido, assim como sua adorável namorada, Usha (Freida Pinto). Esse objetivo central poderia, certamente, ter sido atingido do mesmo jeito mas com mais sabor introduzindo-se mais nuances em todo o contexto, permitindo ao filme tornar-se uma espécie de caso exemplar, de microcosmo que refletisse a saga de uma família interiorana branca norte-americana em seu tempo e lugar. Mas isso nem passou pela cabeça de Howard, um diretor experiente mas que parece sempre mais interessado no brilho da embalagem do que no conteúdo do pacote.

Neusa Barbosa


Trailer


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