Uma Mulher é uma Mulher

Ficha técnica


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Crítica Cineweb

07/05/2003

Até se pode sugerir a Uma Mulher é uma Mulher (1961) o gênero de comédia musical mas se deve lembrar que, em se tratando de um filme de Jean-Luc Godard, obviamente não segue os moldes do clássico musical hollywoodiano dos anos 40 e 50. Na verdade, o filme é uma paródia ao modelo que seduziu o público com histórias água-com-açúcar, em que os atores cantavam e dançavam sem obedecer a nenhuma lógica espacial ou temporal nem tampouco receber o acompanhamento de músicos.

Aqui, Godard interage com essa gratuidade dos números musicais, interrompendo a música para enfatizar um diálogo ou o barulho da abertura do zíper de um vestido. Numa ótima seqüência, em que dois personagens discutem por causa de uma conta de hotel não paga, o diretor insere violinos que parecem mais agitadores provocativos. Godard faz questão de exibir a máquina cinematográfica e, com isso, dialogar diretamente com a magia que envolve a sétima arte. Faz uso da descontinuidade (um ovo jogado para o alto só retorna à frigideira depois que o personagem atende ao telefone), da alternância das cores na luz do ambiente e da inserção, como objeto de decoração de cenário, de um casal cujo beijo não tem fim.

A história que serve como meio para que essas rupturas aconteçam é, à primeira vista, bem simples. Angela (Anna Karina, então mulher de Godard) é uma stripper que quer um fillho e tenta por todas as vias persuadir o namorado, Émile Récamier (Jean-Claude Brialy). Com a relutância do companheiro, a jovem apela para Alfred Lubtisch (Jean-Paul Belmondo), amigo do casal e que, aparentemente, gosta dela.

Dois pontos em Uma Mulher é uma Mulher - segundo filme lançado pelo cineasta, porque O Pequeno Soldado (1960) foi bloqueado na censura - são determinantes para, acreditem, o efeito espirituoso da fita. O primeiro deles é a ironia com que Godard trata o espectador. Émile, a certa altura, discute com Angela enquanto escova os dentes, o que torna suas palavras ininteligíveis. Em outro momento, quando os mesmos personagens vão iniciar outra discussão, ela diz formalmente ao companheiro: "Antes do número, cumprimentemos o público". Ambos curvam-se para as câmeras, poucos segundos antes da discussão ser iniciada pelo clássico "você não me ama". No entanto, a grande diversão está mesmo nas imprevisíveis situações, digamos, patéticas em que são colocados os personagens, afastando o filme das militantes e quase incompreensíveis produções de Godard pós-68.

O interesse do cineasta não está apenas na forma, mas também nas questões existenciais de seus personagens, compostos quase sempre por casais em crise que se provocam mutuamente. As mulheres godardianas são bastante imprevisíveis, quase sempre tomadas por sentimentos intensos e reprimidos. Angela frequentemente posa diante do espelho numa intenção de, talvez, constatar a verdade da letra da música que vive a cantarolar: "Eu sou muito cruel, mas os homens não ligam porque sou linda". A humildade da personagem é dividida com Godard que, a certa altura, coloca na boca de Émile algo como "não posso perder na TV a exibição de Acossado", primeiro longa do diretor e que deu início ao movimento do cinema francês conhecido como Nouvelle Vague.

Luara Oliveira


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