Judas e o Messias Negro

Ficha técnica


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Sinopse

No final dos anos 1960, um dos mais carismáticos líderes do partido dos Panteras Negras é Fred Hampton, de 21 anos. Preso roubando um carro e usando uma falsa credencial do FBI, William O'Neal escapa da prisão em troca de aceitar tornar-se espião de Hampton para o FBI, ganhando sua confiança até tornar-se seu segurança e motorista.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

23/02/2021

De várias maneiras, Judas e o Messias Negro, de Shaka King, é uma grata surpresa. Em primeiro lugar, por ser assinado por um (até agora) outsider de Hollywood, Shaka King, baseando-se num roteiro original dele e de Will Berson, que se debruça com frescor e energia sobre dois personagens atraentes: um famoso e heroico, o Pantera Negra Fred Hampton, outro misterioso, ambíguo e com todo potencial para ser odiável, William O’Neal, que se tornou espião dos Panteras para o FBI e contribuiu decisivamente para o assassinato de Hampton, em 1969, aos 21 anos, quando ele dormia em seu apartamento.
 
Escudado na produção de Ryan Coogler (Fruitvale Station, Creed e Pantera Negra) e Charles King e na sua própria formação em Ciência Política, King arma um filme que combina o melhor de dois mundos, ao conferir carisma e substância aos seus dois protagonistas, sem extrair a complexidade das contradições que os moveram, assim como proporcionar contexto e densidade à História em torno deles. Destas escolhas resulta uma melhor compreensão de um período como os anos 1960, conturbado por conflitos raciais, violência policial e polarização política, três temas diretamente conectados com o tempo atual.
 
Presidente da seção de Illinois dos Panteras Negras, em Chicago, Hampton (Daniel Kaluuya), é uma das jovens lideranças do movimento negro que naquele momento tira o sono do chefão do FBI, J. Edgar Hoover (Martin Sheen). Malcolm X e Martin Luther King já haviam sido mortos e Hoover se preocupava que não ocorresse a ascensão de outro “messias negro”, como ele dizia. Ou seja, um líder carismático, popular, capaz de mover as massas negras oprimidas e revoltadas contra as injustiças e discriminação que as subjugavam há décadas. 
 
Fred Hampton correspondia à descrição. Era um jovem idealista, de palavra fácil e incendiária e que se mostrara influente não só nos círculos afro-americanos. Sua visão socialista ambicionava falar também a outros oprimidos, como os latinos e os brancos pobres, e assim ele começa a articular a sua sonhada “coalizão arco-íris”.
 
Nada mais distinto disso tudo que a trajetória de William O’Neal (Lakeith Stanfield), um ladrão de carros que usa uma falsa credencial do FBI para realizar seus golpes com menos trabalho. Pego em flagrante numa dessas ações, ele é chantageado pelo agente do FBI Roy Mitchell (Jesse Plemons) para infiltrar-se entre os Panteras - é isso ou cadeia, e ainda há dinheiro envolvido. 
 
E assim começa a convivência entre Hampton e O’Neal, que acaba tornando-se motorista e chefe da segurança do líder ativista, nessa posição conhecendo movimentações e planos dos Panteras que são entregues aos federais.
A habilidade do roteiro e do diretor é nítida na composição destes dois personagens de uma forma que um não obscureça o outro, mantendo o foco na sua diferença essencial, sem com isso idealizar além da conta a figura de Hampton. Ele é encarnado com uma peculiar mistura de paixão e vulnerabilidade por Daniel Kaluuya, o ator britânico que chamou a atenção em Corra! e que, com este trabalho, venceu o Globo de Ouro como coadjuvante e acumulou indicação no Sindicato dos Atores e, tudo indica que também a terá no Oscar. 
 
Por outro lado, a figura ambígua do traidor Bill O’Neal ganha muito com uma interpretação que mantém o mistério em torno de suas escolhas. Não saberemos, ao final, muito mais do que ao início sobre as razões que o levaram à mentira e à traição, que custaram a vida não só de Hampton como de outros Panteras. Encarnando seu personagem com uma tensão sutil e também um toque de vulnerabilidade, Lakeith Stanfield o humaniza sem procurar absolvê-lo. O filme opta por mantê-lo nessa bruma, em que se vislumbra a complexidade da natureza humana, nada mais, resistindo à tentação de torná-lo um vilão de caricatura. 
 
Judas e o Messias Negro valoriza com afinco o inegável talento deste elenco - do qual se deve mencionar também Dominique Fishback como Deborah Johnson, a namorada de Hampton que estava grávida e a seu lado quando ele foi morto. Ao mesmo tempo, o roteiro constrói sua complexidade não se esquivando de aspectos polêmicos da própria militância dos Panteras, que os levaram a um confronto finalmente mortal com a polícia, em muitos casos, mas sem abrir mão de revelar o ideário político que os sustentou e que está na base do movimento negro que lança suas raízes até hoje, no Black Lives Matter. 
 
Duas cenas, em particular, evidenciam a ambição deste roteiro e deste diretor na maneira de elaborar seus temas. Uma, a sequência em que Hoover insiste com o agente Mitchell sobre que reação teria se sua filha (que naquele momento é um bebê de oito meses) levasse um negro para sua casa. Outra, a conversa de Hampton com a mãe do Pantera Jake Winters, em que ela se preocupa que o filho, que matou e foi morto por policiais, não seja definido por seus últimos atos. Por essas cenas, se vê que como King caminha com segurança para longe do maniqueísmo, às vezes até emotivo e bem-intencionado, que marca tantos filmes políticos. Este, não. Parece o começo de uma promissora carreira de um novo diretor, disposto a falar de temas polêmicos e que felizmente encontrou meios para furar o bloqueio do mainstream contra isso.

Neusa Barbosa


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