O mundo de Glória

Ficha técnica


País


Sinopse

Sylvie tem mais de 50 anos e trabalha como faxineira em hoteis e navios de luxo. O marido, Richard, é motorista de ônibus. Os dois lutam para manter-se, esperando poder se aposentar. Sua filha mais velha, Mathilda, trabalha numa lojinha. Seu marido, Nicolas, é motorista de Uber. O futuro parece incerto para Glória, filha deste casal, que acaba de nascer.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

01/03/2021

Ao nomear seu 24o filme a partir de um bebê que acaba de nascer, o veterano diretor francês Robert Guédiguian começa a construir uma indagação um tanto pessimista sobre que tipo de mundo e de futuro esperam esta pequena, Glória. 
 
Diretor cuja obra é coalhada de consciência social e humanismo, Guédiguian injeta uma forte dose de ceticismo neste relato, que assina com Serge Valletti, aqui em sua terceira colaboração com o diretor (antes, haviam escrito juntos Uma Casa à Beira-Mar e O Fio de Ariadne). O bebê Glória é a primeira filha do jovem casal Mathilda (Anaïs Demoustier) e Nicolas (Robert Stévenin). Ambos têm empregos precários, um signo da modernidade instável que assola também a França. Mathilda trabalha num brechó, onde é vigiada de perto pela patroa, que controla até suas idas ao banheiro. Nicolas, por sua vez, individou-se para comprar um carro elegante e poder trabalhar como motorista de Uber.
 
Não há pensamento coletivo ou perspectiva social na vida deste casal. Muito menos, na de Aurore (Lola Naymark), irmã de Mathilda, e Bruno (Grégoire Leprince-Ringuet), dois pequenos empreendedores que conjugam na ponta da língua o mais agressivo verbo neoliberal. Eles ganham dinheiro comprando a preço de banana eletrodomésticos e outros objetos de trabalhadores em dificuldades, num bairro popular de Marselha, consertando-os e revendendo-os com lucro.
 
A geração mais velha, representada pelos pais de Mathilda e Aurore, não está mais confortável. Sylvie (Ariane Ascaride, prêmio de melhor atriz em Veneza 2019), a mãe, trabalha como faxineira de hoteis e navios de luxo, à noite para ganhar mais, apavorada com a perspectiva de greve que no momento agita estes trabalhadores, vários deles imigrantes e desprovidos de quase todos os direitos trabalhistas. Seu marido, Richard (Jean-Pierre Darroussin), é motorista de ônibus municipal, mantendo uma jornada estafante para os seus mais de 50 anos de idade. Insatisfeitos, os dois têm medo de lutar por qualquer melhoria, aferrando-se ao pouco que têm.
 
É evidente que Guédiguian olha com preocupação este presente individualista, em que gerações se sobrepõem numa luta mais do que nunca insana pela sobrevivência, que sufoca sentimentos de solidariedade e empatia em favor do sucesso material a qualquer preço - que, na geração mais jovem, torna-se também a medida pela qual se avalia as pessoas. Neste quadro, insere-se um visitante inesperado: Daniel (Gérard Meylan), o pai de Mathilda, primeiro marido de Sylvie, que há muitos anos cumpria pena na prisão, por ter matado acidentalmente um homem, acaba de ser solto e veio conhecer a neta.
 
Ao sobrepor o mundo de Daniel, que se acostumara ao isolamento baseado num corte radical de suas raízes, e desta família enfronhada em tensões materiais e também emocionais, o filme encaminha conflitos que expõem a radicalidade ética que sempre preocupa este diretor. Ele não deixa de compreender os dilemas de cada um deles, nem se coloca no papel de juiz. Mas conduz a história de modo a que aqueles que a assistem se perguntem o que, afinal, levou o mundo a esta situação de indiferença e impossibilidade de utopia coletiva, reafirmando seu compromisso com a realização de um cinema que interroga o mundo, a vida e o seu tempo. 
 
Por outro lado, ao nomear sua pequena como Glória, Guédiguian parece também aspirar a que alguma espécie de superação se desenhe no horizonte. Ao concluir sua história com um tipo de sacrifício bem altruísta, o diretor aponta que não deixou de acreditar numa possibilidade de ascensão que reside no fundo de cada ser humano.

Neusa Barbosa


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