Currais

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Ficha técnica


País


Sinopse

Durante a forte seca no Nordeste, em 1932, o interventor do estado do Ceará, coronel Roberto Carneiro de Mendonça, criou sete campos de concentração, obrigando os flagelados a ficarem ali retidos. Muitos morreram de fome e sede e não tiveram direito a uma sepultura digna.


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Crítica Cineweb

29/03/2021

Currais, dos diretores David Aguiar e Sabina Colares, remexe num passado próximo e incômodo, resgatando uma das páginas mais hediondas da história do país: a criação de pelo menos sete campos de concentração no Ceará, em 1932, ano de uma grande seca no Nordeste, que determinou o confinamento de milhares de retirantes. Muitos deles morreram de fome, sede e falta de assistência de toda ordem e não tiveram sequer direito a uma sepultura digna.
 
Premiado em diversos festivais nacionais, como a Mostra Internacional de S. Paulo, o Cine Ceará, Amazônia Doc e Aruanda, além de ter sido selecionado para festivais na Argentina e Uruguai, o filme transforma a precariedade de materiais de arquivo sobre seu incômodo tema em ferramenta, mesclando documentário e ficção e atribuindo a um personagem ficcional, Romeu (Rômulo Braga), o papel de buscador da verdade. 
 
Romeu não é um estudioso e sim um homem comum, intrigado pelas obsessões de um avô já morto, que envereda por seu passado, percorrendo este Ceará de hoje em que restam, apesar das tentativas de apagamento, alguns vestígios dos vergonhosos campos - em que o interventor do Ceará em 1932, coronel Roberto Carneiro de Mendonça, promovia a “higienização” das grandes cidades, como a capital Fortaleza, arrastando para lá as multidões de flagelados da seca cuja visão esquálida incomodava as elites da época, tão insensíveis como sempre.
 
Romeu conversa com diversos personagens reais, que guardaram a  memória oral desses lugares, onde hoje não restam mais do que esparsos sinais - como o dormente de uma ferrovia que hoje não está mais ali, mas incluía uma das estações que mais despejava os milhares de flagelados de vários pontos do estado, em busca de trabalho e comida. 
 
Um desses campos ficava nas proximidades do que seria uma barragem, de Patu, que acabou não concluída e virou um dos imensos cemitérios a céu aberto que escondem em seu terreno e imediações os restos mortais daqueles que sucumbiam às privações todos os dias e eram enterrados à noite, em covas coletivas, pelos próprios companheiros de sina.
 
Essa memória da tragédia persiste também na devoção pelas “almas da barragem”, a quem diversos moradores das redondezas atribuem milagres.
 
Um desses verdadeiros milagres foi a produção do filme ter podido encontrar ainda alguns sobreviventes do episódio, que eram crianças na época dos campos, e relatam a impressionante rotina desumanizadora a que eram submetidos - como receberem roupas de aniagem e terem seus cabelos raspados, o que inclusive dificultava sua fuga. 
Outra personagem ficcional é Dira (Zezita Matos), interpretando uma diligente trabalhadora de arquivos que se mobilizou para que os registros não fossem destruídos na ditadura militar 1964-1985.
 
Apesar de tudo, registros existem, por exemplo, na imprensa da época, com relatos e fotos sobre a explosão do número de retirantes nas ruas de Fortaleza, mortos de fome e pedindo esmolas, além de algumas fotos dos campos, que não eram tratados como tal nos textos. A voz poderosa do ator Everaldo Pontes reproduz locuções de rádio descrevendo os dramáticos acontecimentos daqueles dias. Nem todos os contemporâneos eram insensíveis.
 
Um poderoso apoio à própria realização do filme veio da tese de mestrado da pesquisadora da UFC Kênia Souza Rios, Isolamento e poder: Fortaleza e os campos de concentração na seca de 1932. A pesquisadora participa do projeto do filme que, ao optar pela fusão entre documentário e ficção, permite encontrar mais matizes de uma realidade chocante e cuja discussão é absolutamente indispensável. 
 
Leia a entrevista dos diretores do filme

Neusa Barbosa


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