Malmkrog

Malmkrog

Ficha técnica


País


Sinopse

Livremente inspirado nos escritos do filósofo russo Vladimir Solovyov, esse drama traz um grupo de membros da elite envolvidos nas discussões mais variadas, sem perceber que o mundo ao seu redor está mudando, e isso poderá custar sua posição social.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

31/03/2021

Ninguém sairá indiferente ao romeno Malmkrog (mesmo que o abandone antes do final), um longa de mais de 3 horas baseado na obra do filósofo russo do século XIX Vladimir Solovyov. Escrito e dirigido por  Cristi Puiu. mais do que um filme, é um desafio e um evento cinematográfico na mesma medida. Obviamente, não é fácil de se penetrar ali, mas, por outro lado, o longa tem muitas recompensas para quem aceitar se empenhar nas suas discussões. Tudo ali poderia conspirar contra, mas há algo quase mágico que Puiu consegue conjurar e assim seduzir boa parte do público.
 
O cenário é Malmkrog, na região da Transilvânia, e o período é em torno da Noite de Natal por volta de 1900. O retrato que Puiu faz é de um projeto de civilização em vias de deixar de existir – se mudaria para algo melhor, ou pior, é outra questão. Em cena, gente rica e culta, uma elite parasitária mas muito estudada, que discute filosofia, religião, poder, realpolitik, Deus, Jesus, diabo, vida e morte, com destreza de argumentos. O roteiro se constrói em pequenos embates dialéticos sobre temas do momento e outros atemporais: bem versus o mal, o divino versus o mundano, honra, nacionalismo, e por aí vai. Tudo em francês, porque precisam ressaltar que não usam linguagens de gente simples. Eles são cruéis uns com os outros, desfazem e refazem parcerias conforme a necessidade do argumento.
 
Tudo se passa numa mansão cercada de neve – mas o interior parece ainda mais gélido do que lá fora. Puiu, trabalhando com o diretor de fotografia Tudor Vladimir Panduru, realiza um filme austero, em que cada vírgula dos diálogos, cada movimento dos atores e atrizes e da câmera é meticulosamente orquestrado, dando a dimensão desse mundo de aparências que encobre a essência de cada um. Há ecos tanto de O discreto charme da burguesia quanto de A regra do jogo. Da literatura, o longa pega emprestado algo dos húngaros – em especial de Sándor Márai, e seu As Brasas – mas Malmkrog vive em seu universo particular à espera do fim que certamente virá, como se sabe, menos de vinte anos depois.
 
A narrativa é dividida em capítulos que levam o nome do dono da propriedade, Nikolai (Frédéric Schulz-Richard); e seus convidados: o arrogante Edoard (Ugo Broussot), a passional Ingrida (Diana Sakalauskaité); Olga (Marina Palii), uma sofredora; e Madelaine (Agathe Bosch), mulher de um general pobre, e um capítulo que leva o nome do mordomo, István (István Téglás). Toda a ação se dá por meio de conversas, mas alguns pequenos imprevistos animam o filme, como um desmaio, uma bofetada e um ataque à mansão.
 
Puiu, que tem em sua filmografia, Aurora e Sieranevada, faz parte da nova onda do cinema romeno, que passou a chamar a atenção no começo da primeira década do século, e se consagrou quando Cristian Mungiu ganhou a Palma de Ouro, em 2007, por 4 meses, 3 semanas e 2 dias. O cineasta estreou com A morte do senhor Lazarescu, um filme de humor peculiar e urgência em sua narrativa. Aqui, ele vai para o extremo oposto – há humor mas não necessariamente dentro do filme, e sim vindo de pensamentos e ideias, algumas vezes, ridículas, que os personagens externam e a urgência de dissipa, numa narrativa enclausurada (mas não claustrofóbica) de mais de 3 horas, com seu tempo próprio.

Alysson Oliveira


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