Na cidade branca

Na cidade branca

Ficha técnica


País


Sinopse

Paul é um engenheiro suíço que trabalha a bordo de navios. Quando seu navio para em Lisboa, ele desce, se hospeda num hotel na zona portuária e, repentinamente, decide ficar ali. Entregando-se a dias livres pelas ruas da cidade, ele se envolve com Rosa, a camareira do hotel.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

03/05/2021

Filme de um dos mais renomados diretores suíços, Alain Tanner - conhecido no Brasil especialmente por Jonas que terá 25 anos no ano 2000 (1976) -, Na Cidade Branca, de 1983, é um digno exemplar de um cinema que acredita no fluxo das imagens, das emoções, dos sentimentos que pode evocar, sem fechar questões nem oferecer discursos. 
 
Alegadamente, o filme teria sido improvisado pelo diretor e seus atores, Bruno Ganz e Teresa Madruga, que vivenciam um envolvimento cheio de camadas, entre um engenheiro naval suíço desembarcado em Lisboa e uma camareira/garçonete de um hotelzinho na região portuária da cidade.
 
Sem se tornar apenas um romance, o filme incorpora esse aspecto também. Paul (Bruno Ganz) é um engenheiro que passa sua vida em barcos e, repentinamente, resolve não retornar ao trabalho, deixando-se ficar num quarto de hotel, como se não houvesse amanhã. Ele se entrega aos novos ritmos de uma vida solta, sem compromissos sem horários, sem destino certo, com a disponibilidade de um menino descobrindo a vida. Em casa, deixou uma mulher (Julia Vonderlinn), a quem envia os filmes super-8 que faz e se transformam em relatos de suas andanças, além de cartas em que descreve o que está vivendo.
 
Em terra, Paul envolve-se com Rosa (Teresa Madruga), a jovem arrumadeira do hotel de Lisboa em que se hospeda, que também trabalha como garçonete do barzinho que fica embaixo. Voluntariosa e esperta, ela explora a vida por outros parâmetros. Embora se deixe tocar pela liberdade contagiante deste momento de Paul, ela tem raízes mais concretas e olhos mais longe. Não será apenas a mulher que espera.
 
Muito do filme se passa nas ruas de Lisboa, que Paul percorre com a curiosidade de um forasteiro não raro um tanto ingênuo, o que eventualmente o torna vítima de algumas situações constrangedoras ou mesmo perigosas - uma briga num bar, um assaltante armado de faca. Ele desliza por tudo isso, como se flutuasse a alguns passos do chão, como se estivesse antecipando o anjo de Asas do Desejo, que ela interpretaria quatro anos depois. Vendo este filme de Tanner, aliás, torna-se mais claro do que nunca que não haveria ator melhor para este anjo do que Bruno Ganz, um intérprete tão disponível e elástico, capaz de entrar em tantas peles humanas na tela.
 
Embalado por uma competente trilha jazzística de Jean-Luc Barbier, Na Cidade Branca é o tipo do filme que tem a capacidade de suscitar emoções distintas a quem acompanha as jornadas de Paul e também de Rosa, que se torna uma presença marcante apesar de não ter o mesmo peso dele. 
 
Paralelamente, o filme se torna em si uma reflexão sobre a superposição de camadas de relatos, incorporando as imagens filmadas pela câmera super-8 de Paul como uma espécie de memória, de flashback de momentos e pessoas que vão passando e desaparecendo da vida dele - evocando a fluidez da própria vida. Da mesma maneira, as cartas que envia à mulher tornam-se uma outra camada, uma espécie de narração à distância, de voz interior compartilhada entre ele e ela. As imagens de Lisboa, a cidade branca, de que o filme se apropria como cenário, por sua vez, são como outro personagem em si, um lugar aleatório em que Paul desliza como um passageiro do tempo, mas que tem sua própria identidade a afirmar. 
 
Uma curiosidade para os brasileiros é a sequência em que a TV mostra o jogo entre Brasil e Itália na Copa de 1982, em que se veem Sócrates, Falcão e Zico, que merece um comentário elogioso de Paul. 

Neusa Barbosa


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