O último a rir

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Ficha técnica


País


Sinopse

Charles Dé é a terceira geração de uma família dona de um próspero negócio de relojoaria na Suíça. Depois de dar uma entrevista sobre os 100 anos da empresa, Charles entra em contato com a própria insatisfação nessa vida e decide simplesmente desaparecer.


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Crítica Cineweb

03/05/2021

Premiado com o Leopardo de Ouro do Festival de Locarno, este primeiro longa do diretor suíço Alain Tanner nasceu sob o signo da inquietação de Maio de 1968, colocando em questão tudo o que estava estabelecido. É um espírito insatisfeito com o próprio status quo o que agita o empresário Charles Dé (François Simon). À frente de um tradicional negócio de relojoaria que acaba de completar 100 anos, ele descobre que não se sente à vontade nesse lugar de privilégio, sem ser exatamente um revolucionário. É um mal-estar existencial que, aliás, não começou agora. Neto de um anarquista, Charles parece ter herdado um germe libertário que nunca pode assumir. A hora parece ser agora.
 
Um belo dia, depois de dar uma longa e extremamente sincera entrevista a um canal de TV, Charles pega seu automóvel e desaparece. Passa alguns dias num hotel, até que esbarra num casal mais jovem, Paul (Marcel Robert) e Adeline (Marie-Claire Dufour). Vivendo uma jornada anárquica com este casal que é também um bocado anticonvencional, Charles acaba morando com eles num subúrbio de Genebra. Somente sua filha caçula, Marianne (Maya Simon), sabe de seu paradeiro.
 
Marianne representa, dentro da história, justamente esta rebelião estudantil que, naquele momento, ganhava as ruas em diversos países do mundo, fazendo reivindicações e bloqueando estradas. Charles, o pai, simpatiza com esta rebeldia. Assim como se identifica com o modo de vida um tanto marginal de Paul, que sobrevive como pintor de placas. 
 
Dentro de seu novo lar, Charles se adapta rapidamente, assumindo de boa vontade tarefas como ajudar Paul nas pinturas e cozinhar para o casal. Ao mesmo tempo, desenvolve uma rotina em que lê muito e mantém horários mais livres. Não parece sentir um pingo de falta nem da mulher (Michèle Martel), muito menos do filho mais velho (André Schmidt), que representa o empresário perfeitamente integrado, satisfeito com sua posição e disposto, o quanto antes, a encontrar o pai e interromper sua pequena aventura.
 
Neste filme despojado, filmado em preto-e-branco, Tanner, também autor do roteiro, insere uma reflexão profunda sobre estar no mundo, sobre a ordem estabelecida e as diferenças entre as classes num país habitualmente tido como modelo de ordem e civilização em que as mulheres, no entanto, só ganharam o direito de votar em 1971 - como aparece num noticiário de TV. Charles, seu protagonista, um cinquentão bem mais velho do que os estudantes rebeldes de 1968, representa uma ruptura num longo ciclo hereditário e familiar de manutenção do status quo, em que ele nunca encontrou lugar para pensar por si mesmo sobre aquilo que o definia, ou mesmo o que realmente queria. Ele mesmo analisa como o ordenamento de sua vida como herdeiro de um negócio de sucesso lhe foi imposto, sem que ele refletisse ou se rebelasse. 
 
Naquele passado, esta lhe pareceu ser a ordem natural das coisas. Agora, não mais, ainda que suas perspectivas de futuro sejam incertas. Seu dinheiro pode acabar, seu filho pode interditá-lo, mas nada nem ninguém pode despojá-lo de sua recém-conquistada lucidez, de sua liberdade individual para dizer “não”. Por isso, Charles Dé é um personagem tão intrigante, com sua insatisfação existencial podendo ser compreendida também hoje, mais de 50 anos após a realização do filme. Ele não quer converter ninguém, afrontar ninguém, só ser ele mesmo. 

Neusa Barbosa


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