Estados Unidos vs Billie Holiday

Estados Unidos vs Billie Holiday

Ficha técnica


País


Sinopse

Cantora refinada, Billie Holiday incendeia as consciências dos EUA quando passa a cantar a canção "Strange Fruit", que denuncia o horror dos linchamentos de negros no sul do país. Visando calá-la, o FBI coloca agentes na sua cola para prendê-la sob pretexto de seu vício em drogas.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

04/05/2021

 Sutileza não é o forte do diretor Lee Daniels, indicado ao Oscar em 2010 pelo melodrama Preciosa que, como o drama biográfico Estados Unidos vs Billie Holiday, gira em torno do tema do abuso. No caso deste último, tomando a si uma figura famosa, a extraordinária cantora Billie Holiday, interpretada com uma entrega e energia admiráveis por Andra Day.
 
Cantora requintada, que empresta sua voz a diversos sucessos imortalizados nas interpretações únicas de Billie, Andra Day conquistou, com justiça, o Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar de melhor atriz pelo primeiro papel de protagonista de sua carreira. E se houver, no futuro, uma razão para lembrar deste filme, certamente será por sua encarnação magnética da bela, trágica, sofrida, maltratada, amada Billie.
 
Assinado por Suzan Lori-Parks e Johann Hari, adaptando livro de Hari (Chasing the Scream), o roteiro ilumina alguns aspectos da vida tumultuada de Billie, focando na perseguição implacável movida a ela por um agente do FBI, Harry Anslinger (Garrett Hedlund). Não era segredo para ninguém que Billie e outros integrantes de sua trupe, como o saxofonista Lester Young (Tyler James Williams), usavam drogas, como a heroína. Mas o incômodo real era outro - a militância de Billie que, em 1939, gravara a música Strange Fruit, com letra de Abel Meeropol, uma contundente denúncia dos linchamentos de negros nos estados do sul dos EUA. Apesar das pressões, Billie, sempre que podia, cantava a canção em seus shows, incomodando os bolsões racistas do país. 
 
O FBI, então, resolve persegui-la por conta de sua fragilidade com as drogas, colocando em seu caminho um agente negro, Jimmy Fletcher (Trevante Rhodes), que voltara há pouco da II Guerra e vai tornar-se uma figura ambígua - mais uma - na vida de Billie, cuja trajetória foi marcada por homens abusivos e exploradores de seu talento.
 
Ainda que se aceite como razoável que o filme não se pretenda uma biografia linear, é fato que os pulos temporais de um incidente a outro na vida da cantora são um tanto bruscos. A montagem, assinada por Jay Rabinowitz, igualmente, é um tanto fragmentada. A impressão geral é de episódios que se sucedem sem uma ligação orgânica, atravessando períodos diferentes da vida de Billie, que documentam algumas de suas lutas, paixões e contradições, sem que sua arte fosse tragada por elas. 
 
O esforço de traçar um perfil dessa mulher encantadora e trágica só não é perdido porque, de algum modo, Andra Day conseguiu captar seu espírito de maneira que ele sobrevive nas sequências que nem sempre conversam bem entre si, mas retêm, ao menos, sua beleza  e sua força individuais. O resto do filme, infelizmente, não está à altura deste trabalho belíssimo de interpretação. A maioria dos personagens são unidimensionais demais para terem alguma relevância, desperdiçando-se, por exemplo, o potencial para desenvolver melhor a figura central de Fletcher.
 
Estaria o diretor Daniels tentando ser didático numa mensagem acima do filme ? É óbvio, desde a colocação inicial, sobre a dificuldade de aprovação, até hoje, de uma lei específica contra os linchamentos - tentada desde 1937 -, que o filme quer inserir-se numa série de outros títulos recentes que denunciaram o persistente racismo estrutural nos EUA. Recentemente, o documentário MLK/FBI, de Sam Pollard, exibido no Festival É Tudo Verdade, trouxe rico material sobre a perseguição implacável movida pelo FBI ao líder negro Martin Luther King. Nada errado com a ambição de Daniels de incluir mais um retrato nessa galeria. Mas sutileza, como se disse antes, não é o seu forte e aqui essa qualidade seria providencial para atravessar as contradições de uma figura tão bela, trágica, vilipendiada e adorada quanto Billie Holiday. Se há uma joia no filme, no entanto, é Andra Day, que compreendeu perfeitamente sua personagem e lhe deu uma encarnação incandescente, que merecia um filme um pouco mais complexo.

Neusa Barbosa


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