First Cow - A Primeira Vaca da América

First Cow - A Primeira Vaca da América

Ficha técnica


País


Sinopse

No Oregon do século XIX, Otis Figowitz, conhecido como Cookie, trabalha como cozinheiro para grupos de rudes caçadores de peles. Quando ele salva um imigrante chinês, King Lu, forma-se uma inesperada amizade. Tempos depois, eles compartilham sonhos de sucesso. Os dois ganharão dinheiro com os deliciosos bolinhos de Cookie - o problema é que, para fazê-los, precisam roubar leite da única vaca da região.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

17/05/2021

Kelly Reichardt é uma diretora que talvez não seja conhecida como merece, embora tenha atrás de si uma obra relevante e premiada. Seu novo filme, First Cow - A primeira vaca da América, é mais um exemplar de um cinema capaz de atravessar o tempo, com uma narrativa que, mesmo ocorrendo em época distante da nossa, pulsa com uma energia que nos toca.
 
Do mesmo modo que seu conhecido O Atalho (2010), o filme é ambientado na chamada época de constituição dos EUA, em First Cow, o início do século XIX. Num ambiente ao mesmo tempo belo e rude, nas florestas do Oregon, ela situa seus personagens, Cookie (John Magaro) e King Lu (Orion Lee). Cookie é o apelido de Otis Figowitz, que sobrevive como cozinheiro para grupos de rudes caçadores de peles que então percorriam as matas locais. Numa noite em que colhia frutos, ele encontra o imigrante chinês nu e escondido entre as folhas. Ali mesmo começa a revelar-se a natureza suave de Cookie que, ao contrário dos homens que o acompanham, é destituído de sentimentos violentos. Ele traz roupas e comida para o chinês e o esconde até que ele possa fugir sozinho de seus próprios perseguidores. 
 
A vida não era fácil naqueles dias, naqueles lugares bravios, onde o máximo de civilização era um forte, em torno do qual se formava um mercado ao ar livre, um bar, jogatina e muitas brigas. Um mundo de homens brutos, com sonhos de fortuna, não raro arrebentados ao longo do caminho. 
 
Perto do forte, Cookie e King Lu se reencontram e aí se fortalece uma amizade imbuída de fraternidade e sonhos de sucesso. E também de projetos empreendedores. Cookie sonha com abrir um hotel, mas antes os dois têm que encontrar formas de ganhar dinheiro. Vem a calhar a habilidade de Cookie como padeiro. Ele gostaria de fazer biscoitos, mas a dificuldade está na escassez dos ingredientes - especialmente o leite, numa terra onde não existe mais do que uma única vaca, que pertence à maior autoridade local, o Revendedor-Chefe (Toby Jones). De empreendedores para ladrões noturnos do leite, é apenas um passo. E o maior perigo está no sucesso da empreitada.
Novamente ao lado de seu habitual colaborador, Jonathan Raymond, adaptando com ele um livro da autoria deste (The Half-Life), Kelly Reichardt trabalha em chave sutil para construir a intensidade de sua história, tanto no acúmulo dos pequenos detalhes dos cenários - contando com a excelente fotografia de Christopher Blauvelt - quanto para elaborar os relacionamentos entre os personagens. É singular como ela constroi a psicologia de um mundo de homens, conseguindo individualizar o perfil de cada um deles, ainda que não se aprofunde tanto naqueles que gravitam ao redor de Cookie e King Lu. Dessa maneira, a diretora fisga os espectadores para um engajamento com seus protagonistas que leva o coração do público a bater na mesma toada do deles, em situações mais e mais arriscadas. Os EUA que ela nos faz vislumbrar é um país de grandes sonhos e esperanças, construídos por pequenas pessoas que não dispõem dos meios para realizá-los, por isso, são parte de uma humanidade que respira assim mais ou menos em toda parte.
 
Neste retrato multiétnico de uma nação construída por muitos imigrantes, como King Lu, não escapa à diretora o posicionamento dos povos nativos em cena. Eles parecem estar em toda parte, com suas línguas, roupas e valores próprios, onipresentes como um contexto incontornável à presença branca e, não raro, rindo das esquisitices dos forasteiros. É um mundo praticamente sem mulheres, também - e as únicas à vista são justamente as indígenas. Avançando nesta complexa geografia humana, a diretora faz um retrato que joga com o tempo, acumulando profundidade à medida que a narrativa flui.

Neusa Barbosa


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