Deserto Particular

Ficha técnica


País


Sinopse

Daniel é policial em Curitiba e é afastado do serviço depois de um incidente violento. À espera da marcação de seu julgamento, ele se angustia quando Sara, a mulher com quem ele se envolveu pela internet, desaparece. De impulso, resolve atravessar o país, até Sobradinho (BA), em busca dessa mulher, que parece ser a única pessoa a compreendê-lo.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

01/09/2021

Representante do Brasil na disputa de uma vaga no Oscar 2022, Deserto Particular, de Aly Muritiba, é quase uma metonímia do próprio país, em que a jornada de dois personagens de regiões opostas representa ao mesmo tempo um choque e uma possibilidade de encontro. O protagonista deste incandescente drama, Daniel (Antonio Saboia), é um policial em crise de consciência, que não tem a mais remota semelhança com os milicianos em riste que saíram de suas tocas para assombrar a civilidade nacional. Daniel tem conflito de culpa por um incidente que o afastou do trabalho, em que se manifestou como ele não governa sua raiva - assim como seu desejo.
 
Há outras lacunas na personalidade deste homem atormentado e retraído, que não tem com quem falar. Cuidando sozinho do pai idoso com demência (Mauro Zanata), ele está basicamente sozinho. Sua irmã (Laila Garin) é uma presença constante mas, de uma geração diferente, vive a vida em outra voltagem. Por isso tudo e também por toda uma história pregressa, Antonio tenta preencher o enorme buraco emocional deixado pela morte da mãe, quando ele tinha 17 anos, por essa figura mítica de uma mulher, Sara, que ele vislumbra na tela do celular. Ele também idealiza esta namorada virtual, tanto quanto a memória da mãe, transformando-a em tábua de salvação - e aí está o acerto do título ao referir-se ao “deserto”, pois é esta a descrição mais precisa do lugar emocional onde vive Daniel. 
 
Essa visão funcional das mulheres, em que entra também a forma como ele trata a irmã, é um dos vieses a contaminar o seu olhar - que ele só terá confrontado diante das verdades que a misteriosa Sara, à distância, lhe esconde, mas que finalmente não poderá mais resguardar quando Daniel, impulsivamente, atravessa o país à sua procura. O sul frio procura o nordeste ensolarado e nota-se também aí escondida, quem sabe, uma metáfora política de um país dramaticamente dividido, e não apenas pela temperatura e a paisagem.
 
A idealização da mulher, aliás, é tema já visitado pelo diretor e corroteirista a partir de seu longa de estreia, o sublime Para Minha Amada Morta (2015), mas a jornada de Daniel é de outra ordem, guardando semelhança com a de Travis (Harry Dean Stanton), o protagonista do cult Paris,Texas, de Wim Wenders. De todo modo, as verdades que Daniel precisa conhecer estão nas mãos de dois outros personagens, Fernando (Thomás Aquino) e Robson (Pedro Fasanaro), levantando os véus de uma autodescoberta que envolve sexualidade, liberdade, família e superação.
 
Vencedor do prêmio do público na seção Giornate degli Autori do Festival de Veneza 2021 e também dos troféus de melhor filme brasileiro e melhor ator (Pedro Fasanaro) no Mix Brasil 2021, Deserto Particular vale-se de uma contenção emocional nunca destituída de intensidade, que encontra uma moldura sintética e justa na fotografia do premiado venezuelano Luis Armando Arteaga e o ritmo de um coração que aos poucos se desafoga na montagem sensível da portuguesa Patricia Saramago.

Neusa Barbosa


Trailer


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