A Última Noite [de Spike Lee, 2002]

Ficha técnica

  • Nome: A Última Noite [de Spike Lee, 2002]
  • Nome Original: The 25th Hour
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: EUA
  • Ano de produção: 2002
  • Gênero: Drama
  • Duração: 135 min
  • Classificação: 14 anos
  • Direção: Spike Lee
  • Elenco: Edward Norton

País


Sinopse

Monty foi condenado a sete anos de prisão por tráfico de drogas e deseja passar suas últimas 24 horas ao lado de pessoas de quem gosta. Spike Lee acompanha sua última noite em liberdade.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

20/05/2003

Como não dar crédito ao sujeito que, no meio da madrugada, atrasa um compromisso aparentemente importante para resgatar um cão agonizante? Logo de início, A Última Noite, de Spike Lee, apresenta uma interessante inversão de papéis, onde o mocinho da história é o traficante Montgomery Brogan (Edward Norton) que, curiosamente, tem o mesmo nome do otimista e gente-boa líder da trupe do Nossa Turma (The Get-Along-Gang), desenho animado da metade dos anos 80 que marcou uma geração.

Monty, como é carinhosamente chamado pelos amigos, foi condenado a sete anos de prisão por tráfico de drogas e deseja passar suas últimas 24 horas ao lado de pessoas de quem gosta. Além de um encontro com o pai, James (Brian Cox), que vai conduzi-lo ao presídio, o traficante combina sua última balada em liberdade com os amigos de infância, o bem-sucedido corretor de Wall Street Francis (Barry Pepper) e o professor de literatura Jacob (Philip Seymor Hofman). Também está na lista de convidados a namorada, Naturelle (a belíssima Rosario Dawson), por quem Monty, apesar de apaixonado, nutre certa desconfiança por acreditar que ela o delatou à polícia.

Baseado no romance homônimo de David Benioff, A Última Noite se distingue da extensa maioria de filmes do diretor por exibir um elenco majoritariamente branco e deixar de lado a explícita militância pró-movimento negro. Lee também ousa em alguns trechos do filme, enfatizando abraços ou momentos de relevância para a trama, como a expressão do polícial ao encontrar a droga escondida no apartamento do protagonista. Outro bom truque é captar os movimentos frenéticos dos olhos dos operadores de Wall Street e intercalá-los aos relógios pendurados na parede com as horas das principais cidades do mundo.

O sofrimento de Monty em seu último dia em liberdade transforma o espectador em cúmplice do traficante pois, cada vez mais, torce para que algo extraordinário aconteça e esse malvado-homem-bom não tenha de ir para a prisão. O sentimento de solidariedade em relação ao protagonista só é questionado nos momentos em que Francis acorda o público para o fato de que Monty é um bandido e irá pagar pelo crime que cometeu. Como exemplo, há um diálogo revelador, no qual Jacob lamenta o destino do amigo e, em seguida, tem de ouvir de Francis que todo o conforto de que Monty desfruta é proporcionado pelo sofrimento de muitas outras pessoas.

Durante essa seqüência, a dupla mira, através da janela, os destroços do World Trade Center sendo removidos. É possível interpretar aqui um olhar crítico de Lee, diante da aparente inocência de seu país, atacado covardemente por terroristas. Assim como Monty, cujo luxo é sustentado por dezenas de dependentes químicos, os Estados Unidos se firmam como potência mundial às custas de nações mais pobres.

Essa oportura discussão se mistura a um visível amor por Nova York. Como prova, Lee realiza inúmeras tomadas aéreas da cidade e elege, como local preferido de Monty, um banco à beira do East River, de onde se vê a ponte do Brooklin. O pai do protagonista, um escocês cujo carro exibe a bandeira dos Estados Unidos, também enfatiza a relação com Manhattan: "Não importa onde estiver, você sempre será um nova-iorquino".

É desse amor por Nova York que surge o momento mais forte do filme. Depois de decidir com o pai os pormenores de sua ida ao presídio, na manhã seguinte Monty se depara com a inscrição Fuck You (foda-se) no espelho do pub irlandês. Nesse momento, despeja sobre os habitantes seu descontrole frente à situação: "Foda-se essa cidade e quem estiver nela" - e começa a praguejar contra negros, latinos, italianos, orientais. Lee, num momento iluminado, desvenda a raiz do preconceito: olharmos o outro e julgarmos que, na ausência dele, todos os nossos problemas estariam resolvidos. Dessa seqüência também deriva o belo final, simbolicamente, representando a interação e a solidariedade dos moradores de NY.

Cineweb-23/5/2003-20.07

Luara Oliveira


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