Identidade

Identidade

Ficha técnica


País


Sinopse

Adulta, Irene reencontra uma colega de juventude por acaso. Negra como ela, Clare, por ter a pele clara, assumiu-se como branca, e, com isso, subiu na vida, casando-se com um homem abertamente racista. Depois do reencontro, as duas irão confrontar suas identidades raciais e suas escolhas.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

08/11/2021

“Qual chá se passa por champanhe francês?”, diz Clare (Ruth Negga) ao telefone, no seu quarto de hotel, ao atendente. É uma fala que vem ainda no começo de Identidade, adaptação escrita e dirigida por Rebecca Hall, para o romance de Nella Larsen. Toda a ideia do filme está ciontida nessa linha. O título original, “passing”, refere-se a uma prática de pessoas passíveis de “se passaram” por outra raça, etnia ou gênero, e essa é a questão central aqui. Na cultura brasileira, possivelmente, o passing mais famoso é a Escrava Isaura. No filme, Clare acredita que ela mesma é o chá tomado por champanhe francês.
 
Inspirado num romance de 1929 – duas traduções foram lançadas no Brasil, no ano passado, com os títulos Identidade e Passando-se –, o filme de estreia da atriz Hall na direção é bastante fiel ao original, em seus temas e até na narrativa. A protagonista é Irene (Tessa Thompson), cujas identidades racial e sexual são confrontadas ao reencontrar uma antiga amiga, Clare, que se passa por branca. Ao contrário desta, a outra assume sua negritude com orgulho e, mesmo com uma vida bem estabelecida com o marido médico, André Holland (André Holland), ainda mora no Harlem.
 
Clare, por sua vez, cujo nome dá uma pista muito óbvia dela mesma, mudou-se de cidade na adolescência, quando o pai morreu, e assumiu-se branca. É casada com um homem que, anos mais tarde, certamente simpatizaria com o nazismo. John (Alexander Skarsgård) fala abertamente que odeia negros e, apesar de não saber do passado de sua mulher, ironicamente a chama de Negona, porque, segundo ele, a cada dia ela fica mais escura – mas ele tem certeza de que ela é branca. A filha deles, para alívio de Clare, nasceu branca.
 
Após estabelecer os elementos e personagens centrais do filme, Hall joga com a desconstrução das duas figuras. O mundo branco e perfeito de Clare é, na verdade, repleto de passings: desde sua identidade racial até sua sexualidade (o longa é bastante discreto, como o livro, mas há uma tensão entre ela e Irene), seu casamento (aparentemente feliz) e as pessoas que a cercam (um amigo que se passa por heterossexual).  Ninguém pode ser feliz numa vida calcada na mentira, é o que diz Identidade.
 
Irene, por sua vez, está segura de sua negritude, tanto que participa de uma associação de caridade que promove uma identidade positiva para negros e negras – o que, em si, já carrega certa ideia de ser transgressor. Ela não é indiferente aos preconceitos que sofre e isso fica bastante óbvio quando conhece John. Mas também não é capaz de superar um racismo estrutural que existe na sociedade. Sua empregada Zulena (Ashley Ware Jenkins) também é negra, mas de um tom de pele mais escuro do que a patroa, o que parece dar a essa o "direito" de a tratar mal. Larsen e Hall investigam diversas camadas de racismo que se configuram numa dinâmica sufocante e complexa.
 
O problema aqui é que Hall parece tão enamorada de seu material, dos temas importantes com que está lidando, que acaba fazendo um filme um tanto frio, um tanto distante. Muito bem realizado técnica e esteticamente, Identidade carece de uma faísca que detone tudo o que é tão organizado aqui. As escolhas parecem um tanto óbvias, e nem sempre acrescentam camadas ao filme. A fotografia, por exemplo, em preto e branco, assinada por Eduard Grau, transita na mesma zona acinzentada na qual estão Clare e sua identidade.
 
Parece que ao optar pela sutileza – o clímax do filme é quase incompreensível – o longa acaba sendo superficial. Há perguntas importantes aqui, e Hall merece o crédito por levantá-las. As respostas, obviamente, não são simples, e nem caberiam num filme, mas a discussão seria bem-vinda, e disso Identidade se furta. Seu final trágico e melancólico não converge todo o soco no estômago que o filme acredita estar dando. 

Alysson Oliveira


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança