A Festa Nunca Termina

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Crítica Cineweb

04/06/2003

O palco é a cidade inglesa de Manchester, ou Madchester para alguns, e a platéia, composta por apenas 42 pessoas, assiste ao show do lendário Sex Pistols, banda punk de Johnny Rotten e Sid Vicious. A Festa Nunca Termina, de Michael Winterbottom, começa em 1976 e percorre todo o caminho que culminou na consolidação da música eletrônica e da conseqüente adoração não mais das bandas mas dos DJs. Protagonista da cultura rave, o DJ não apenas produz música com ajuda de computadores, mas também lança novidades e principalmente determina o ritmo em que a pista de dança irá chacoalhar.

A fita, parte da seleção oficial do Festival de Cannes em 2002, mostra a versatilidade de Winterbotton (Bem-vindo a Sarajevo) que, além do vídeo digital, faz uso de colagens e imagens de arquivo para contextualizar a época mais criativa da música pop. Quem conta a história é o pretensioso Tony Wilson, entediado apresentador de um programa de variedades na TV Granada, emissora da qual ainda hoje é funcionário. Wilson fez realmente parte da cena musical de Manchester retratada no filme, mas fez questão de esclarecer no livro - ainda não lançado no Brasil - que escreveu baseando-se no roteiro de Frank Cottrell Boyce: "Sendo uma novelização significa que (1) boa parte do que se segue é pura ficção e nunca chegou realmente a acontecer e que (2) o pequeno gênio [Boyce] que criou um monte de mentiras e porcarias contidas no roteiro de A Festa Nunca Termina também é responsável por todas as boas frases, piadas e diálogos que vêm a seguir".

É Wilson, muito bem interpretado por Steve Coogan, quem narra os acontecimentos e, não raro, comenta-os para a câmera. No já citado show dos Pistols ele lembra que, mesmo parte da trilha sonora, o clássico Anarchy in the U.K., ainda não tinha sequer sido escrito naquela época. Para esquecer as histórias malucas que é obrigado a cobrir, o apresentador se junta a amigos e funda o selo Factory Records (responsável por bandas como Happy Mondays, Joy Division e New Order) e a casa noturna Hacienda, segundo lar para os jovens que curtiam a nova música pop surgida em Manchester. O club foi à falência apesar de estar sempre lotado, já que a maioria dos freqüentadores não consumia o álcool do bar e sim o ecstasy vendido pelos traficantes. Com a popularização da droga predileta entre os clubbers, cresceu também o poder dos traficantes e, conseqüentemente, a violência.

O título original, 24 Hour Party People (algo como 'a galera que curte a balada 24 horas por dia'), foi tirado de uma música do álbum de estréia do grupo Happy Mondays, mas aqui em versão remix do DJ Jon Carter. É até curioso o otimismo do título do filme, cujo fio condutor é a New Order, banda formada pelos integrantes do Joy Division depois que o vocalista Ian Curtis se suicidou, em maio de 1980. Merece destaque a interpretação de Sean Harris no papel de Curtis. Ele não só se parece com o músico, como também consegue reproduzir muito bem os movimentos e as expressões faciais do vocalista no palco.

A fita ainda traz muitos dos músicos que fizeram parte do movimento, mas nunca em seus papéis originais. É o caso do próprio Tony Wilson que aparece como diretor da TV Granada, de Howard Devoto (vocalista do Buzzcocks) como faxineiro, Mani (Stone Roses, Primal Scream) como técnico de som, além de Mark E. Smith (The Fall), Paul Ryder (Happy Mondays) e outros.

Quando o assunto é o nascimento da música eletrônica, não se pode deixar de citar os pioneiros alemães do Kraftwerk, nem a cena electro de Detroit e menos ainda a indústria house de Chicago. Mas escolher a New Order como fio condutor de A Festa Nunca Termina é perfeitamente aceitável, já que foi o grupo que popularizou as batidas repetitivas com uma convincente competência. Enfim, além de divertido, o filme consegue captar a essência de um movimento importante para a história da música moderna e registrar os comportamentos que influenciaram e continuam influenciando toda uma geração.

Cineweb-5/6/2003

Luara Oliveira


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