Não olhe para cima

Ficha técnica


País


Sinopse

Uma dupla de astrônomos descobre que um cometa irá se chocar com a Terra, acabando com a vida no planeta. Quando tentam alertar a humanidade, eles recebem as reações mais estranhas, do negacionismo ao desespero.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

27/12/2021

Não é nada difícil para o público – especialmente o brasileiro – identificar figuras reais nas personagens de Não Olhe Para Cima. Dos políticos de extrema-direita aos cientistas que ninguém ouve, passando por negacionistas e uma mídia manipuladora e superficial. Estão todos em cena na comédia satírica escrita e dirigida por Adam McKay (Vice). Nela, um cometa gigante se aproxima da Terra. Sua colisão acabará com a vida no planeta, mas nem todo mundo leva isso a sério – na verdade, a maior parte da humanidade duvida da existência de tal corpo celeste, outra boa parte diz estar feliz pelas oportunidades econômicas que o desastre pode trazer.
 
Sátira é um campo minado que depende de referências. O público precisa, antes de mais nada, saber o que e/ou quem está sendo satirizado, e aqui é bem fácil de perceber isso - McKay sabe exatamente com o que e para quem está jogando. Ele faz a alegria da arquibancada ridicularizando uma presidente direitista (Meryl Streep) ou colocando como mártires uma dupla de astrônomos (Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence). Há também o filho imbecilizado da governante (Jonah Hill) e uma dupla de apresentadores (Cate Blanchett e Tyler Perry) de um talk show matinal, idiotizados para um público semelhante a eles.
 
Como transformar em sátira figuras que são ridículas por natureza? A resposta não está em Não Olhe Para Cima que, como cinema, vale-se de todo os subterfúgios que McKay já havia utilizado em seus filmes anteriores, como um falatório sem fim e cortes rápidos. Mostra-se, assim, pobre em suas escolhas formais, optando pela metralhadora giratória verbal sem dar chance para seu público pensar. Não que seja destituído de bons momentos ou engraçados – mas são bem menos do que o diretor imagina estar proporcionando.
 
Não olhe para cima está dizendo que boa parte da humanidade é incapaz de pensar mesmo que sua vida, literalmente, dependa disso, e que tudo se tornou espetáculo. O sociólogo francês Jean Baudrillard já havia dito isso, e de maneira bem melhor, meio século atrás. No programa de televisão, por exemplo, o Dr. Mindy (DiCaprio) sai-se bem melhor do que sua orientanda, Dibiasky (Lawrence), por pura sorte, ao jogar o jogo que o público televisivo quer, ao contrário da jovem, que surta em rede nacional – levando a destruição do planeta a sério – e se torna um meme.
 
Há também um empreendedor robótico – encarnado com gosto e picardia por Mark Rylance – que se torna o principal doador da missão planejada pela presidenta para destruir o cometa. Na verdade, obviamente, tudo é feito em vista o eleitorado e os consumidores. Mas morto não vota nem compra, então é preciso salvar a humanidade pelo bem da política e da economia.
 
Não é exagero pensar que McKay mirou numa sátira absurda e maluca ao nível de Dr. Fantástico, mas Kubrick, obviamente, ele não é. Aqui, o diretor quer sempre estar um passo à frente do público, bancando o sabichão. Fosse um filme feito dois anos atrás, Não olhe para cima teria outro efeito. Neste momento, talvez já estamos todos cansados dos personagens e das situações no filme. Todo o cinismo de butique aqui talvez também esteja enfraquecido, pois, com altos e baixos, houve um objetivo em comum nesses últimos anos, e, apesar das provações políticas, sociais, econômicas e científicas, surgiram vacinas num tempo recorde.   

Alysson Oliveira


Trailer


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