A Tragédia de Macbeth

A Tragédia de Macbeth

Ficha técnica


País


Sinopse

Convencido pela profecia de três bruxas, Macbeth acredita que se tornará rei da Escócia. Influenciado por sua mulher, acaba matando o verdadeiro monarca na esperança de subir ao poder.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

10/01/2022

Macbeth – ao lado de Romeu e Julieta e Hamlet – é, possivelmente, a peça de Shakespeare mais encenada e adaptada para o cinema. Mal se passaram cinco anos desde que Justin Kurtzel fez uma versão cheia de som, fúria e vísceras, então para que um novo filme? Por que não Tito Andrônico (filmado na década retrasada por Julie Traymor) ou a comédia Trabalho de Amores Perdidos (tão pouco conhecida)? Sejam lá quais forem os motivos que levaram Joel Coen a fazer “mais uma versão” de peça escocesa, eles pouco importam. O que conta é que o resultado é magistral, brilhante, uma versão definitiva – até que alguém ouse mais ao filmar o bardo novamente.
 
Talvez para fugir um pouco da saturação e voltar às raízes, Coen, que também assina o roteiro (em sua primeira direção sem a parceria do irmão Ethan), volta às raízes da peça, a começar usando o título completo, A Tragédia de Macbeth. Além disso, o filme é praticamente um exercício de minimalismo potencializado na força do texto. A trama é mais ou menos conhecida, mas nem por isso se torna previsível, graças ao elenco de peso, a direção e a estética singular a que o diretor obtém no filme.
 
Denzel Washington e Frances McDormand são os protagonistas, Macbeth e sua Lady, tomados pela obsessão de subir ao poder não importa o preço. Como se sabe, esse feito é previsto por um trio de bruxas, embora o que elas digam seja interpretado por ele da maneira que mais lhe convém. Muito sangue e cabeças rolam nesse caminho, loucura e compulsão também são elementos fundamentais nessa jornada, cujo destino é mais do que conhecido – basta olhar o título.
 
Ainda assim, Coen não despreza a trama e, em especial, o texto. Shakespeare é declamado em sua glória completa, com inversões, termos arcaicos e duplos sentidos, por atores e atrizes em total domínio do texto e de seu métier. Ver Washington (um veterano em Shakespeare, mas que nunca tinha feito essa peça) dizer “Methought I heard a voice cry, “Sleep no more!/ Macbeth does murder sleep” deve ser um dos pontos altos para qualquer cinéfila ou cinéfilo neste ano. Ou, também, ver McDormand (que já fez o papel no teatro) planejando detalhadamente a ascensão do marido pouco proativo.
 
A questão em A Tragédia de Macbeth é que o texto, a trama e as atuações são importantes, mas nada supera a força visual que Coen imprime a seu filhe. Conhecido por suas comédias ácidas, o diretor volta ao preto-e-branco (como fez em filmes como O Homem que não estava lá), assinado pelo diretor de fotografia francês Bruno Delbonnel. A escolha não é mera firula estética, há um motivo aqui também narrativo. Mais do que os extremos do branco e do preto, o que interessa a Coen é o chiaroscuro, as zonas cinzentas onde as coisas perdem sua definição – tal qual os personagens e a trama. Ninguém é apenas bom ou mau, mas figuras carregados de nuances e tons. Evoca também uma atmosfera de Carl Theodor Dryer, com suas texturas e personagens aflitos e consumidos por dilemas e dores.
 
Isso tudo alia-se ao cenário – com desenho de produção assinado por Stefan Dechant – assumidamente artificial. O filme foi todo rodado em estúdio (exceto pela cena final), com cenários geométricos e angulosos que lembram bastante – especialmente pelo preto-e-branco também – os filmes do expressionismo alemão, evocando assim, por meio da paisagem, o estado emocional altamente perturbado em que vivem os personagens, além dos tempos históricos incertos. O jogo de luz e sombra revela e esconde na mesma medida em que Macbeth avança em seu plano de matar o rei Duncan (Brendan Gleeson), parte fundamental do plano arquitetado pela Lady.
 
O próprio Coen (usando pseudônimo), ao lado de Lucian Johnston, é responsável pela montagem do filme, que é marcada por fusões de uma imagem estranha para outra ainda mais estranha, criando um efeito quase de terror. A Tragédia de Macbeth se passa num mundo pesadelo noir criando imagens inesquecíveis – os soldados se transformando na floresta que se move ou o trio de bruxas (todas interpretadas por Kathryn Hunter) logo na primeira cena. A verdade é que há inúmeros momentos de beleza e horror visual, transformando esse num filme que demanda múltiplas revisões, não apenas pela sua riqueza textual e visual, mas por puro prazer estético da beleza das imagens.
 
Coen conseguiu um pequeno – ou talvez nem tão pequeno assim – milagre de trazer frescor a algo altamente conhecido – e já adaptado por mestres como Orson Welles ou Akira Kurosawa –, e fazer parecer que é a primeira vez na vida que vemos a tragédia de Macbeth. Ao mesmo tempo, cria um grande problema para os futuros e futuras aspirantes a adaptar a peça. “Quando nos veremos novamente?”, pergunta uma das bruxas na primeira fala do filme/peça. Bem, não importa quando será, mas dificilmente estaremos diante de algo tão impressionante.

Alysson Oliveira


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