Dolls

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Crítica Cineweb

02/07/2003

Neste seu novo e belíssimo filme, Dolls (bonecos), o diretor tece uma autêntica galeria de pinturas cinematográficas, repletas de cores e camadas, para intercalar três trágicas histórias de amor. O título remete ao teatro de bonecos Bunraku - criaturas de cerca de um metro de altura, manipuladas cada uma por três homens e cuja arte, ao lado do teatro Nô e do Kabuki, formam a trilogia clássica dos palcos japoneses. As histórias, porém, foram criadas a partir de fragmentos que ficaram ao longo dos anos na memória de Kitano, que volta aqui ao caminho de seu poético Hana-bi - Fogos de Artifício, Leão de Ouro em Veneza em 1997.

Até os violentos Yakuza (mafiosos do Japão) que povoaram o filme anterior de Kitano, o sanguinolento Brother, comparecem para mostrar que também lhes resta uma lembrança romântica. Caso de Hiro (Tatsuya Mihashi), poderoso chefão que já percorreu toda a trajetória de eliminação dos inimigos na hierarquia dos gângsters, mas não consegue esquecer uma namorada do passado (Chieko Matsubara), que prometeu esperar sua volta, indo todos os sábados ao parque onde se encontravam.

Outra história remete a uma pop star de sucesso, Haruna (Kyoko Fukada), que se afasta do show business depois de um acidente de carro que desfigura seu rosto, mas tem uma experiência reveladora de renúncia a partir da decisão extrema de um de seus fãs mais apaixonados (Tsutomu Takeshige). Amarrando estas duas narrativas e alguns incidentes paralelos, insere-se o conto dos amantes unidos um ao outro por um longo fio (Miho Kanno e Hidetoshi Nishijima). Os dois eram noivos, mas ele, pressionado pela ambição de subir na vida, rompe o compromisso para casar-se com a filha do patrão. O abandono leva a ex-noiva a tentar o suicídio. Ela sobrevive, mas perde a razão. Abalado, o rapaz desiste do casamento de conveniência, dedicando-se inteiramente à amada que já não é capaz de reconhecê-lo.

A gravidade das histórias de Dolls relembra o cinema tradicional japonês, alcançando a atmosfera poética de mestres do passado, como Ozu, Mizoguchi e Kurosawa. A direção de arte é de um luxo de sonho - paisagens, cenários, figurinos (criados pelo estilista Yohji Yamamoto), tudo é simplesmente esplêndido.

Ao mesmo tempo, o filme mantém intocado o minimalismo denso que caracteriza o melhor cinema nipônico de todos os tempos. Kitano reencontrou o seu coração poético e concedeu ao público um dos momentos mais bonitos de seu talento.

Neusa Barbosa


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