O Tempo de Cada Um

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Crítica Cineweb

10/07/2003

Cineasta de segunda viagem, Rebecca Miller reúne três histórias intimistas sobre mulheres para compor um pequeno painel de problemas e ambições femininas. Modelo de simplicidade e delicadeza, o filme acumulou alguns prêmios respeitáveis, como no Festival de Sundance em 2002 - de onde saiu com o troféu de melhor fotografia (para Ellen Kuras) e o Grande Prêmio do Júri.

Continua difícil encontrar no cinema boas personagens femininas, até porque o número de roteiristas e diretoras é bem menos expressivo do que o de homens nas mesmas profissões. Assim sendo, dilemas femininos retratados com este grau de complexidade são, por si, um achado, pelo menos para quem procura um tipo de cinema um pouco mais comprometido com a reflexão do que com a mera diversão.

Abre o filme a história de Delia (Kyra Sedgwick), uma esposa e mãe de três filhos que foge do marido depois que se dá conta de que este passou a sentir prazer em espancá-la - e de forma cada vez mais brutal. Apesar de curta, a história é certeira em focalizar a impressionante ambigüidade que costuma acontecer nestas situações, em que mulheres maltratadas diminuem, a princípio, a importância das pancadas que sofrem para só depois perceber que seu silêncio apenas alimenta o algoz.

Melhor ainda é que este segmento não se detém na vitimização de Delia. O enredo a retrata como uma lutadora empenhada em reconstruir sua vida e que não desiste da própria sexualidade. Ao reencontrá-la com um adolescente (Leo Fitzpatrick), Delia deixa claro que está reassumindo o controle do próprio corpo e, com ele, o da própria vida.

Menos bem-realizado é o episódio intermediário, seguindo a história de Greta (Parker Posey), uma bem-sucedida editora de livros de culinária de Nova York, confrontada com dois desafios. O primeiro, profissional, quando cai em suas mãos a oportunidade de editar pela primeira vez uma obra de um autor em ascensão. O segundo, quando este escritor desperta nela desejos ardentes, o que a leva a encarar o fato de que seu casamento está morno demais para o seu gosto.

É curioso que seja este o trecho do filme com menor força, já que é justamente aqui que a protagonista guarda maiores semelhanças com a própria roteirista e diretora - como Greta, de origem judia e confrontada com a sombra de um pai bem-sucedido. Afinal, Rebecca é filha de ninguém menos do que o premiado dramaturgo Arthur Miller, autor de A Morte do Caixeiro Viajante e outros clássicos do teatro moderno. Talvez até por esses traços autobiográficos, a autora teve menos distanciamento, mais pudor na entrega e no delineamento da personagem, que soa um tanto superficial em comparação com as duas outras protagonistas.

Sem dúvida, o melhor episódio dos três é o último - que consta ter sido criado diretamente para o cinema, não adaptado de contos previamente escritos por Rebecca, como os outros dois. A superioridade desta história vem do fato de que aqui os conflitos são de melhor qualidade, retratados com mais profundidade. Paula (Fairuza Balk) é uma garota que vive com um homem, engravida e entra numa crise existencial depois de escapar da morte por um triz. Sem saber se quer abortar ou mesmo continuar ao lado do namorado, ela sai de carro para pensar na vida. Encontra um adolescente, a quem dá carona, e que parece estar fugindo de coisa bem pior - e está.

Neste segmento, a diretora conseguiu dominar melhor o ritmo com que compartilha as informações sobre os dois personagens com a platéia, inserindo ainda alguns coadjuvantes que colorem melhor a personalidade de Paula - como sua mãe e um padrasto francamente hostil à moça. Sem falar muito, o carona encarna um personagem eloqüente, sinal de que Rebecca tem boa mão na direção de atores. A neo-diretora ainda precisa melhorar no sentido de filtrar mais a sua origem literária. Como escritora, ela é sem dúvida apaixonada pela beleza das palavras e se apega um pouco demais ao texto - o que se traduz em excesso de narração em off (pela voz de um homem, John Ventimiglia).

Neusa Barbosa


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