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Ficha técnica


País


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Crítica Cineweb

16/07/2003

A condição feminina no Irã é discutida por uma hora e meia, dentro de um carro dirigido pela protagonista bela, moderna e questionadora (Mania Akbari). Passando por ruas atulhadas de tráfego da Teerã atual, a motorista anda em círculos, esbarra em vias sem saída, procura vagas para estacionar, tropeça em buracos, discute incansavelmente com seus passageiros, mas não perde o rumo nem desiste de seguir adiante. Nem o filme, que é de uma simplicidade intrigante ao mesmo tempo que discute problemas de complexidade nada desprezível. Questões universais, como o futuro da família, o desejo, a religião, as leis que tolhem as mulheres numa sociedade teocrática embora plural.

Ao contrário da maioria dos filmes iranianos, o ambiente é uma cena urbana. Não há horizontes bucólicos à vista. E a discussão que dá partida à série de dez cenas de dez minutos que compõem o filme é justamente da mulher sem nome com o próprio filho (Amin Maher). O garoto tem cerca de dez anos e passa do limite da rebeldia ao protestar contra o divórcio dos pais, especialmente, contra o novo casamento da mãe. Fustiga impiedosamente essa mãe, a quem atribui toda a culpa pela separação - entregando um perfeito retrato de um pequeno machista autoritário em formação, que num dado momento encerra a conversa tapando os ouvidos. O bate-boca é tão feroz que num dado momento lembra um verdadeiro boxe verbal - comparação que o aparecimento do número de cada episódio na tela só faz aumentar.

É uma luta o cotidiano desta mulher, que dá carona à própria irmã, a uma velhinha que procura chegar a um santuário para rezar, a uma moça que sonha com o casamento, a uma amiga abandonada pelo noivo e a uma prostituta - uma figura quase clandestina no Irã mas cuja realidade é cada vez mais difícil de negar. Com ela, a motorista discute sexo e desejo e as razões de a outra fazer o que faz. E ouve da profissional do sexo a provocativa definição de que a diferença entre prostitutas e esposas não é tão grande assim. Para ela, a esposa nada mais é do que a atacadista do sexo, enquanto as profissionais seriam as varejistas. O amor nunca é de graça, entende cinicamente a moça.

A participação da prostituta na história (algo não inédito no cinema iraniano, já visto por exemplo em O Círculo, de Jafar Panahi) é uma das ousadias do filme, mas não a única, em se tratando da figura feminina. Talvez ainda mais audacioso seja mostrar em primeiro plano a cabeça raspada de uma das caronistas, num país em que os preceitos religiosos mais rígidos proíbem mesmo que se exiba os cabelos femininos sem um lenço ou chador a cobri-los. Ao desafiar estes limites, o diretor certamente se solidariza com a protagonista, empurrando adiante a discussão sobre as dificuldades de ser mulher naquele país. Elas não podem nem mesmo pedir um divórcio com base na simples incompatibilidade de gênios. A lei iraniana, como lamenta a protagonista num diálogo com o filho, exige que, para ter direito ao divórcio, a mulher acuse o marido de espancamento ou uso de drogas (esta, a opção dela e mais um motivo de conflito com o filho).

Filmado com duas câmeras DV, fixas no teto do carro, o filme representa a segunda incursão do diretor Abbas Kiarostami no cinema digital. Em 1999, ele já se havia aventurado na nova tecnologia para compor seu documentário ABC África (2001). No mais, Kiarostami continua fiel a uma das máximas do cinema iraniano, que colhe interpretações extremamente naturalistas de elencos predominantemente amadores, imprimindo um tom bastante próximo ao documental. A simplicidade que se procura nestas histórias curtas encontra formas eficientes de narração, tanto pelo que a câmera mostra, quanto pelo que esconde. Nunca se vê, por exemplo, o novo marido da motorista. O ex é vislumbrado de longe, pela janela do carro, no momento em que o filho troca o carro dele pelo dela. Pequenos detalhes de economia de linguagem que assinalam a boa forma de um diretor veterano com pleno domínio de sua arte e antenado com o novo.

Neusa Barbosa


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