Abaixo o Amor

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Crítica Cineweb

11/09/2003

A moralidade e a decência foram uma das grandes preocupações da indústria cinematográfica americana em meados do século XX. Promovida por normas como o Código Hayes, a autocensura imperou nas produções da época, não apenas proibindo cenas, mas fazendo com que a temática sexual fosse exclusivamente tratada por meio de metáforas, eufemismos, ou qualquer forma minimalista de abordagem.

Embora todos os filmes tenham sido atingidos, foram nas comédias românticas que esses preceitos fizeram florescer um novo estilo cinematográfico. Em busca de algo novo, as tensões sexuais passaram a ser traduzidas em corrosivos diálogos, nos quais todos os encontros mais sensuais estavam estritamente limitados a um desafio intelectual. Prova disso são clássicos como Confidências à Meia-noite, Imitation of Life, Quanto Mais Quente Melhor ou mesmo Sabes o que Quero, onde astros como Rock Hudson, Doris Day, Marilyn Monroe, Tom Ewell, Tony Curtis e Tony Randall ironizavam segredos de alcova, sofisticando o conceito de guerra dos sexos.

Há quem diga que essas produções são mais estimulantes do que suas posteriores, já na década de 70, quando a inteligência e a criatividade deram lugar a promiscuidade e a nudez gratuita. Seja como for, uma boa forma de comparar é assistir ao Abaixo o Amor, filme que não apenas reproduz a técnica, como resgata todo o glamour visual, narrativo e até histórico dos quase esquecidos clássicos dos anos 50.

Em um papel que poderia ter sido de Doris Day, temos Reneé Zellweger como a escritora Barbara Novak, que revoluciona Nova York com seu novo livro "Down With Love", um manifesto pró-feminista que diz "não" ao amor e "sim" ao trabalho, ao êxito e ao sexo. Enquanto sua obra é um sucesso internacional, ela se converte na obsessão do jornalista metido a galã, Catcher Block, estilo de homem mulherengo a quem Novak combate com todas as suas forças. Este, interpretado por Ewan McGregor, ao melhor estilo cafajeste de Rock Hudson. Aqui, a pergunta é: "Os opostos realmente se atraem?"

As peripécias do casal são muito bem assessoradas pelo melhor amigo e chefe de Mr. Catch, Peter McMannus (David Hyde Pierce), e pela melhor amiga e editora de Barbara, Vikki (Sarah Paulson). Mais do que coadjuvantes, estas personagens são essenciais para o desenrolar da história em uma excepcional performance dos atores. Aliás, um rico elenco, contando até com a participação de Tony Randall, como Theodore Banner, em mais uma referência às comédias românticas de 1950.

Outros pontos que fundamentam esse estilo podem ser apreciados com a impecável recriação de todos os elementos visuais e auditivos que caracterizavam os clássicos. A fotografia em Cinemascope, as cores brilhantes e saturadas, a filmagem em estúdio, o black projection, o split-screem e a trilha sonora, recheada de jazz e de sucessos da época, foram profundamente pesquisados pela dupla Eve Ahlert e Dennis Drake, que assina o roteiro.

No entanto, ao andar pela fina linha entre a homenagem e a paródia, o filme segmentará seu público, que precisará ter um mínimo de conhecimento dos clássicos. E quanto menos for, maior será a graça e particularidade da produção que passará despercebida. Fato, diga-se, que deixaria o filme imprestável. E é exatamente por isso que a obra teima em não fazer sucesso comercial, apesar do peso dos protagonistas.

De qualquer forma, o filme tem muito a oferecer. Além de ser divertido é uma corajosa experiência do diretor Peyton Reed, que merece elogios pela atenção a cada detalhe. Sua capacidade de abstração sobre o que representava este cinema há meio século é o maior ganho da produção. E para os fanáticos do gênero, o filme é imprescindível.

Rodrigo Zavala


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