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Documentarista fala das alegrias e dificuldades de filmar uma cidade musical

Publicado em 27/10/20 às 11h14

 
 
Cena do documentário Faz Sol Lá Sim, sobre a cidade de Marechal Deodoro (Créditos: Divulgação)
 
 
 
Faz Sol Lá Sim é um documentário que tem como cenário a peculiar cidade de Marechal Deodoro, em Alagoas, conhecida por suas inúmeras bandas filarmônicas. No filme, seu diretor Claufe Rodrigues (na foto abaixo) acompanha o cotidiano da cidade e de seus habitantes com suas histórias quase sempre envolvendo música. O filme é uma das primeiras produções nacionais a chegar aos cinemas depois da reabertura. Nessa entrevista,  documentarista, que também trabalha com literatura, fala, entre outras coisas, o processo de produção, as peculiaridades de Marechal Deodoro, e da responsabilidade que seu filme carrega chegando aos cinemas.
 
Como o senhor começou o projeto de Faz Sol Lá Sim? Já conhecia a cidade?
Eu tenho uma ligação afetiva muito forte com aquela região, pois minha mãe nasceu em Pernambuco, na fronteira com Alagoas, e meu poeta favorito, Jorge de Lima, é de União dos Palmares, região agreste alagoana. Então, sempre que posso, vou para lá, onde tenho muitos amigos. Mas nunca ninguém tinha me alertado para essa característica musical de Marechal Deodoro – para eles, parece algo tão natural! Era final de 2014. Eu tinha sido convidado a participar da Flimar, a festa literária da cidade, como escritor, e estava com minha mulher, Mônica Montone, na orla da lagoa Manguaba, tomando uma cerveja no final da tarde. De repente, passou diante de nós uma banda filarmônica, tocando uma música clássica. Foi um deslumbre. Alguém da mesa ao lado comentou que a cidade era recheada de músicos. Eu disse: “Precisamos fazer alguma coisa com isso”. Mônica sugeriu: “Por que não um filme?”. Na época eu trabalhava na GloboNews e o canal estava começando uma parceria com a GloboFilmes para produzir documentários. Expus o projeto e, em menos de cinco minutos, ele estava aprovado.
 
Como foi feita, e quanto tempo levou, a pesquisa com as pessoas, para descobrir personagens interessantes para o documentário?
A pesquisa levou três anos, foi feita em várias etapas. Fomos chegando aos poucos, conhecendo os moradores, conversando com diferentes pessoas, estabelecendo uma relação de confiança e cumplicidade com os músicos. Aos poucos, a cidade foi se abrindo para nós. Essa aproximação foi fundamental para a leveza e espontaneidade dos personagens diante da câmera. Aliás, difícil foi caber todo mundo no filme – costumo dizer que Faz Sol Lá Sim é o documentário com mais personagens da história do cinema.
 
Pelos letreiros finais notamos que foi um processo um tanto longo, o senhor poderia falar um pouco sobre isso?Tivemos muita dificuldade na captação de recursos para o filme. Alagoas é um estado com pouco dinheiro e muitas carências, o que foi agravado com a violenta crise econômica que vem nos castigando desde 2015, sem contar a Lava-Jato, que atingiu algumas das principais empresas que financiam cultura no Brasil. Foi uma luta. Mas o exemplo das próprias filarmônicas, que viviam na época com um auxílio miserável de R$ 1.400 por mês, nos inspirou a seguir adiante, ajustando os rumos do projeto de acordo com o dinheiro disponível.
 
Como o filme foi muito bem planejado – o roteiro era desenvolvido e atualizado a cada novidade de produção –, não tivemos problemas na montagem das sequências. Em termos de filmagem, foram quatro dias em março de 2016 e quase vinte dias em 2017. Nessa etapa, ainda tivemos um contratempo inesperado: íamos filmar em junho, aproveitando as festas juninas, mas o estado sofreu uma das piores inundações de todos os tempos e tivemos que adiar para outubro.
 
Como foi seu trabalho com Marcelo Vicente na montagem do filme?
Claro que você descobre um monte de coisa na ilha de edição, mas quando o roteiro está bem estruturado, tudo fica mais fácil, a montagem vira um trabalho puramente prazeroso.
 

Sua experiência como poeta e romancista o ajudou a fazer esse documentário?

Com certeza. Era uma história muito difícil de contar, por causa da quantidade de personagens e histórias paralelas. Optei por fazer uma abordagem ativa, em vez de passiva, roteirizando, a partir da pesquisa, sequências que fugiam ao documentário convencional, como forma de tornar a narrativa mais interessante. Dois exemplos: as cenas da “titia” e da barbearia.
 
Faz Sol Lá Sim é um dos primeiros longas brasileiros a chegar aos cinemas com a reabertura das salas, como o senhor encara essa responsabilidade?
Quis o destino que assim fosse. Eu me sinto até constrangido em convidar as pessoas a irem ver o filme nos cinemas, por causa do coronavírus. Mas o lançamento no meio da pandemia reforça o caráter guerreiro de Faz Sol Lá Sim. É um sentimento contraditório. Não era o que eu queria, mas tenho imenso orgulho de vê-lo agora entrando em cartaz, apesar de tudo.
 
O filme já foi exibido em Marechal Deodoro? O que as pessoas acharam?
Ainda não; é o que mais queremos, até pela idade avançada de alguns dos personagens do filme. Um deles, o Cícero do Pife, morreu no início deste ano; lamentei muito que ele – um personagem que se queixou o tempo todo no documentário da falta de reconhecimento – não tenha visto o resultado final. Exibimos Faz Sol Lá Sim no final do ano passado no festival de Penedo, cidade mais ao sul de Alagoas. Dois ou três músicos de Marechal foram lá para assistir, e saíram emocionados ao ver a sua cidade retratada de uma maneira, para eles, tão inesperada.
 
O senhor tem futuros projetos?
Sim, muitos: de filmes de ficção e documentários, de programas e séries de TV, de livros. E não só futuros: acabo de escrever um romance, “No bico do corvo” – espero conseguir logo uma boa editora para ele –, e estou preparando um repertório com minhas canções para, quem sabe, gravar no ano que vem. Também quero voltar a organizar eventos de literatura. Há muito a se fazer no Brasil, em termos de arte e cultura. Apesar das dificuldades, espero poder dar a minha contribuição.

Alysson Oliveira


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