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Produtora norte-americana resgata figura da pioneira francesa Alice-Guy Blaché

Publicado em 28/10/20 às 12h25

Produtora, diretora e roteirista experiente, a norte-americana Pamela B. Green dedicou oito anos de sua vida a levantar financiamento e realizar as pesquisas e entrevistas necessárias à produção do documentário Alice Guy-Blaché - a História não Contada, que resgata a figura desta pioneira produtora, diretora, roteirista e montadora, que teve uma carreira profícua na França e nos EUA e, no entanto, não teve seus créditos devidamente anotados nos livros de história do cinema. Em entrevista a Neusa Barbosa, do Cineweb, Pamela B. Green detalha as circunstâncias desta produção, que contou, entre seus principais patrocinadores, com Hugh Hefner, criador da revista Playboy.  
 
Você demorou 8 anos para produzir o documentário “Alice Guy-Blaché - A História não Contada”. Quais foram suas principais dificuldades?
 
Hollywood simplesmente não financiou o filme. Tive que captar dinheiro a cada passo do caminho para novas pesquisas e para preservar, restaurar e licenciar seus filmes. O orçamento proveio inteiramente de doações e foi completado graças aos patrocinadores do Kickstarter e à generosidade de filantropos, principalmente mulheres, como Geralyn White Dreyfous,Jamie Wolf e Regina K. Scully. Eu sabia que a única maneira de fazer a diferença seria encontrando novo material e mostrando o máximo possível de seu trabalho no filme. E adoro pesquisa, sou uma detetive por natureza.
 
Pode-se achar um pouco surpreendente que Hugh Hefner, criador da revista Playboy, tenha sido o produtor executivo e o maior patrocinador da produção. Por que ele se interessou tanto por Alice Guy-Blaché ? Como ele se envolveu com esse projeto ?
 
Surpreende as pessoas porque a maioria delas não sabe que ele restaurou muitos filmes e financiou documentários. O meu foi  apenas um dos muitos documentários de e sobre mulheres financiados por Hugh Hefner. Ele também ajudou várias mulheres a publicar livros. Ele simplesmente não divulgava essas coisas
 
Foi o arquivista do Arquivo de Imagens em Movimento SCA Hugh M. Hefner da Universidade do Sul da Califórnia, Dino Everett, quem me ajudou a entrar em contato com ele. E posso dizer que Hugh não conseguia acreditar que nunca tinha ouvido falar de Alice Guy-Blaché antes.
 
Comparando o domínio de Alice Guy-Blaché sobre várias técnicas (em cor, som, edição, sincronização etc.), sua criatividade e produtividade, podemos dizer que ela foi tão importante quanto Georges Meliès, seu contemporâneo, para a história do cinema - ou ainda mais importante?
 
Definitivamente. Eu queria mudar a narrativa sobre as origens do cinema para mostrar a meninos e meninas que tanto homens quanto mulheres levaram a arte adiante e abriram caminho para outros.
Os filmes de Alice são muito sensíveis e ousados. Ela entende de composição, devido à sua formação em fotografia. Ela se preocupa com a capacidade de identificação e acessibilidade. Eu não podia acreditar que seus filmes foram feitos tão cedo na história do cinema porque eles parecem muito contemporâneos.
 
O apagamento do nome de Alice da história da Gaumont Studios foi intencional ? Os historiadores e pesquisadores, na França e nos Estados Unidos, como Georges Sadoul, não foram negligentes em não desvendar seu papel na história do cinema, atribuindo seus filmes a seus assistentes ?
 
Léon Gaumont não a apagou intencionalmente. Ele e Alice foram amigos de longa data e ele a colocou em contato com jornalistas para discutir os primeiros tempos do cinema. No entanto, essas publicações optaram por não incluí-la. E infelizmente Gaumont morreu antes que uma revisão da história do estúdio que ele supervisionava pudesse ser publicada.
 
O sexismo explica em parte porque ela foi esquecida, mas há muitos outros motivos. Nos primórdios do cinema, as pessoas não tinham ainda se dado conta da importância da documentação e da preservação dos filmes, então historiadores como Sadoul confiavam, não raro, em meros boatos. Além disso, Alice mudou-se para os EUA, onde teve uma segunda carreira de uma década, o que  também pode explicar por que ela foi esquecida na França. Ela também se mudou com frequência depois de voltar para a Europa na década de 1920, então entrar em contato com ela, de todo modo, teria sido difícil.
 
O desaparecimento de seus filmes pode ser atribuído ao fato de os conceitos de preservação e restauração não terem sido estabelecidos em sua época?
 
Sim. No início, o cinema era visto como uma moda passageira, não uma forma de arte que veio para ficar, por isso muitos filmes foram muitas vezes simplesmente jogados fora ou espalhados pelo mundo.
 
Você pretende lançar as obras de Alice Guy em alguma plataforma ou outro meio?
 
Há um DVD da Gaumont com seus filmes franceses. Kino Lorber e o British Film Institute (BFI) também lançaram DVDs com alguns títulos. Meu objetivo é iniciar uma fundação para que se possa continuar a preservar ou restaurar qualquer novo material que for encontrado e também, espero, conseguir um acordo de streaming para que as pessoas possam realmente ver todos os filmes de Alice em um só lugar.

Neusa Barbosa


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