Neste seu segundo filme, feito no mesmo ano de seu longa de estréia, Acossado, Jean-Luc Godard realizou um de seus trabalhos mais políticos - e teve seu primeiro embate com a censura. Por ter ousado colocar na tela as contradições da França diante da guerra da independência da Argélia, então em curso, e mostrar uma longa cena de tortura, o filme acabou impedido de chegar às telas francesas por três anos. Só em janeiro de 1963 seria lançado em Paris. Não foi pouca ousadia para um cineasta iniciante, embora já um crítico consagrado na revista Cahiers du Cinéma. A guerra na Argélia é, ao lado do colaboracionismo na II Guerra Mundial, um desses armários secretos onde a psique francesa parece nunca cessar de encontrar esqueletos. Isso a longo prazo. Falar na ferida quando ela ainda estava aberta foi mais incômodo ainda.Num de seus filmes mais bem-realizados, Godard segue as pegadas do protagonista Bruno Forestier (Michel Subor), um desertor do front argelino que se refugia em Genebra, trabalhando como agente secreto para um grupo terrorista de extrema-direita. O que o move não é ideologia, porque ele não tem uma. Difícil conceber alguém mais solto no mundo, entregue ao momento presente. Bruno vive preso às suas inquietações. Não há ser mais povoado de dilemas, políticos e estéticos. Ele simpatiza com a saudação dos revolucionários espanhóis dos anos 30 e inveja sua paixão e generosidade. Mas também pensa na poesia de Louis Aragon, na pintura de Paul Klee, na melhor hora do dia para escutar Bach e Mozart.Apaixonado por uma jovem misteriosa, Veronica Dreyer (Anna Karina), ele se preocupa em definir se seus olhos são "cinza-Velásquez" ou "cinza-Renoir". Seu interesse por ela será o motivo da primeira resistência a uma missão: matar o responsável por uma emissão radiofônica. Quando recusa o trabalho, Bruno passa a ser perseguido por seus pares, que usam contra ele os mesmos métodos usuais da contra-inteligência: ameaças e armadilhas que deixam claro como sua vida agora não vale nada. O lado argelino também está de olho em Bruno.Há mais perguntas do que certezas no posicionamento do personagem - e essa foi mesmo a maior intenção de Godard, levada aqui a bom termo. Anos depois do filme, o diretor disse ao jornalista Richard Roud sobre este filme: "Queria mostrar uma mente confusa, numa situação confusa. Meu filme, em todo caso, era uma espécie de autocrítica". O instinto aguçado de Godard fotografou a alma francesa naquele momento. Pesquisas de opinião na França apontavam que 80% da população não sabia o que pensar do conflito argelino - ou, simplesmente, não queria pensar na situação. Visto hoje, o filme serve facilmente de parâmetro para reflexão sobre inúmeras outras situações de conflito ou crise de ideologias que os movimentos da História não páram de renovar.
