Um filme de beleza impressionante

As cosmogonia que Pedro Maia de Brito apresenta logo na abertura de seu longa Os Vivos Caminham a Terra estabelece um tom de construção de mundo que permeará seus intensos 85 minutos. De um Big Bang pós-punk nasce a vida no planeta que pode ser a Terra – há uma lua rodeando – mas pode ser qualquer lugar em qualquer universo.
As imagens impressionantes na fotografia de Danilo Rosa apresentam um mundo soturno onde seres humanos e fantásticos disputam a narrativa de dominação marcada pela exploração de uma espiritualidade vindoura. De rituais e a seres, o fundo da existência é marcado pela busca daquilo que não se tem.
Uma dialética entre uma espécie de pertencimento e exclusão, então, guia os personagens que parecem mais arquétipos - ou figuras míticas - num universo que tenta figurar a si mesmo. É um filme de austera beleza formal, no qual o jogo soturno de cores e sons emoldura as transições numa espécie de evolução histórica.
Há ecos de Bélla Tarr (se fosse um pouquinho mais “lento”), Aleksei German (do Difícil ser um Deus) e do brasileiro Eduardo Nunes, dos quais Maia de Brito se apropria e reconfigura sua estética na qual o som é tão importante quanto a imagem. A trilha de Petra Szászi é tão imponente quanto a fotografia Rosa. Em seu primeiro longa de ficção, o diretor pernambucano se anuncia como um grande talento a se prestar atenção.
Os Vivos Caminham a Terra foi exibido no Festival de Brasília, e ainda não há previsão de estreia nos cinemas.
