18/07/2026
Drama

O Custo da Coragem

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Jornalistas-heróis, que arriscam a própria vida para denunciar criminosos e políticos desonestos, alimentam um bom número de histórias para o cinema - e, a bem da verdade, quase sempre revestidas de uma excessiva idealização que os profissionais da categoria deploram. Recentemente, a irlandesa Veronica Guerin, assassinada a mando de traficantes de drogas em 1996, inspirou dois filmes. O primeiro, pouco visto, foi Alto Risco, produção britânica feita para a TV por John Mackenzie, estrelado pela americana Joan Allen e onde sequer se usavam os nomes verídicos dos personagens. O segundo, bem mais espalhafatoso, até porque dirigido por Joel Schumacher, é esta produção hollywoodiana, estrelada pela australiana Cate Blanchett.

Desde logo, a primeira atração é Cate Blanchett, uma das mais refinadas intérpretes do cinema atual. É difícil não se deslumbrar com o enorme arsenal de recursos de sua atuação, visivelmente apaixonada por sua personagem. Blanchett materializa a instável dualidade humana e profissional de Veronica, uma repórter de segunda linha no diário dublinense Sunday Independent que passa ao primeiro plano quando resolve mergulhar na denúncia do submundo dos traficantes de drogas locais.

A atriz personifica uma mulher enérgica, intrépida, envolvente, sensível e competitiva. É difícil não simpatizar com ela em sua coragem de chutar canelas de alto coturno. Apesar dos notórios exageros do diretor Schumacher, que decide trilhar o caminho da grandiloqüência, é inegável que há bons momentos. A cena que mostra o assassinato brutal da jornalista - com seis tiros à queima-roupa - é uma delas. Outras são o passeio da repórter na periferia de Dublin, onde crianças brincam com seringas usadas, deixadas para trás por viciados pouco mais velhos do que elas. Também é forte a seqüência em que Veronica decide ir pessoalmente à casa do chefão John Gilligan (Gerard McSorley) e é barbaramente espancada pelo próprio traficante.

De sentimentalismo exagerado, porém, é a cena final, com o funeral da jornalista, com seguidos closes em sua mãe (Brenda Fricker), marido (Barry Barnes) e filho pequeno (Simon O´Driscoll), tudo isso embalado em música altíssima - recurso-clichê para arrancar lágrimas da platéia. Se ao filme falta unidade, não é culpa de Cate Blanchett, que visivelmente procurou a verossimilhança possível dentro de um roteiro (das americanas Carol Doyle e Mary Agnes Donoghue) e uma direção que ostentam vários deslizes. Falta esclarecer, por exemplo, se a morte da repórter deveu-se à sua ousadia ou a falhas das autoridades em fornecer-lhe proteção. Ainda assim, o filme deverá ser lembrado pela interpretação de Cate Blanchett, indicada ao Globo de Ouro.

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