Jornalistas-heróis, que arriscam a própria vida para denunciar criminosos e políticos desonestos, alimentam um bom número de histórias para o cinema - e, a bem da verdade, quase sempre revestidas de uma excessiva idealização que os profissionais da categoria deploram. Recentemente, a irlandesa Veronica Guerin, assassinada a mando de traficantes de drogas em 1996, inspirou dois filmes. O primeiro, pouco visto, foi Alto Risco, produção britânica feita para a TV por John Mackenzie, estrelado pela americana Joan Allen e onde sequer se usavam os nomes verídicos dos personagens. O segundo, bem mais espalhafatoso, até porque dirigido por Joel Schumacher, é esta produção hollywoodiana, estrelada pela australiana Cate Blanchett.Desde logo, a primeira atração é Cate Blanchett, uma das mais refinadas intérpretes do cinema atual. É difícil não se deslumbrar com o enorme arsenal de recursos de sua atuação, visivelmente apaixonada por sua personagem. Blanchett materializa a instável dualidade humana e profissional de Veronica, uma repórter de segunda linha no diário dublinense Sunday Independent que passa ao primeiro plano quando resolve mergulhar na denúncia do submundo dos traficantes de drogas locais.A atriz personifica uma mulher enérgica, intrépida, envolvente, sensível e competitiva. É difícil não simpatizar com ela em sua coragem de chutar canelas de alto coturno. Apesar dos notórios exageros do diretor Schumacher, que decide trilhar o caminho da grandiloqüência, é inegável que há bons momentos. A cena que mostra o assassinato brutal da jornalista - com seis tiros à queima-roupa - é uma delas. Outras são o passeio da repórter na periferia de Dublin, onde crianças brincam com seringas usadas, deixadas para trás por viciados pouco mais velhos do que elas. Também é forte a seqüência em que Veronica decide ir pessoalmente à casa do chefão John Gilligan (Gerard McSorley) e é barbaramente espancada pelo próprio traficante.De sentimentalismo exagerado, porém, é a cena final, com o funeral da jornalista, com seguidos closes em sua mãe (Brenda Fricker), marido (Barry Barnes) e filho pequeno (Simon O´Driscoll), tudo isso embalado em música altíssima - recurso-clichê para arrancar lágrimas da platéia. Se ao filme falta unidade, não é culpa de Cate Blanchett, que visivelmente procurou a verossimilhança possível dentro de um roteiro (das americanas Carol Doyle e Mary Agnes Donoghue) e uma direção que ostentam vários deslizes. Falta esclarecer, por exemplo, se a morte da repórter deveu-se à sua ousadia ou a falhas das autoridades em fornecer-lhe proteção. Ainda assim, o filme deverá ser lembrado pela interpretação de Cate Blanchett, indicada ao Globo de Ouro.
