Os técnicos de cinema criam efeitos especiais que dão vida a dinossauros extintos, colocam o homem em outros planetas e transformam pesadelos em realidade. O diretor espanhol Carlos Saura conseguiu uma proeza semelhante com seu novo filme, Goya, dando vida a personagens pintados pelo mestre espanhol que hoje estão imobilizados nas paredes dos grandes museus.
Goya não se resume a uma biografia do célebre pintor, durante seus últimos dias de vida em exílio na cidade de Bordeaux, na França. É um mergulho na alma atormentada do mestre em meio ao seu processo criativo. Como nas telas do pintor, o filme carrega nas cores escuras, onde sobrevivem os demônios exorcizados pelos pincéis de Goya. São imagens caricaturais, distorcidas, que só seriam retomadas no século XIX pelos modernistas.
Francisco Goya (1746-1828) foi um pintor de prestígio na corte espanhola do século XVIII, caiu em desgraça por causa de suas idéias liberais e acabou seguindo para um exílio voluntário na França, onde morreu aos 82 anos. Saura mostra o fim solitário do artista, doente, surdo, com sua mulher e uma filha adolescente, em Bordeaux, e as recordações de sua juventude, em flashback.
Como artista da Corte, Goya desfrutou de prestígio com a nobreza e a Igreja. Admirador de Velázquez e Rembrandt, procurou retratar com os pincéis os horrores da guerra no período da invasão Napoleônica. Cenas de batalha ganharam vida e dramaticidade com a câmera do diretor de fotografia Vittorio Storaro (vencedor do Oscar de fotografia por O Último Imperador). O quadro original e a encenação chegam a se confundir. É emocionante ver "Os Fuzilamentos de 3 de Maio" ganhar vida na tela. Um dos méritos do diretor foi o de ter conseguido escrever um roteiro no qual as pinturas dão o tom à história que está sendo contada.
O pintor é interpretado por Francisco Rabal, na velhice, numa caracterização convincente, e por José Coronado na fase mais jovem, quando era um autor em busca do sucesso. Assistir Goya é como dar um passeio pelo Museu do Prado e conferir cada uma das obras do velho mestre e entender como elas foram criadas. Tais qualidades lhe valeram quatro prêmios Goya - o Oscar espanhol - inclusive melhor ator para Rabal e fotografia para Storaro.
