O diretor Bertrand Tavernier escolhe recontar o conturbado período da França ocupada e governada pelo colaboracionismo a partir de uma ótica especial. Elege, para isso, retratar essa época - fonte de um mal-estar eterno para os franceses - a partir do ponto de vista de dois artistas que sobreviveram no seu ofício - o que significava trabalhar para os alemães, que naqueles dias comandavam também os estúdios de cinema. Todos eles, personagens verídicos que aparecem no filme com seus nomes verdadeiros, seguindo a autobiografia do cineasta Jean Devaivre, Salvo-Conduto. Vivido com carisma irresistível por Jacques Gamblin - desempenho premiado com o Urso de Prata do Festival de Berlim/2002 -, Jean Devaivre ganha na tela as feições de um herói do dia-a-dia. Casado, pai de um bebê, ele se divide entre a militância secreta na Resistência e o trabalho de assistente de direção no estúdio Continental. Ativa figura de bastidores, Devaivre comanda a logística operacional dos filmes de diretores como Maurice Tourneur (Philippe Morier-Genoud), enquanto o famoso Henri-Georges Clouzot (que nunca aparece em cena) trabalhava em outros roteiros fechado numa sala ao lado. Uma função estafante para Devaivre, porque acarreta, entre outras coisas, driblar as pressões e a censura dos chefes nazistas, além da escassez de película e madeira para os cenários.Fora do trabalho, Devaivre arrisca a pele em ações da Resistência - escondendo em casa granadas que servem para explodir linhas de trem, prejudicando os deslocamentos da tropa de ocupação. Em sua bicicleta, atravessa diversas vezes as linhas divisórias do próprio medo, da repulsa que sente em trabalhar para o inimigo e da necessidade premente de sobrevivência.Na corda bamba vive também o escritor e roteirista Jean Aurenche (Denis Podalydès). Homem despojado, seu patrimônio se resume aos manuscritos de sua obra do momento, uma mala e um quadro. Em compensação, amores não faltam. São três as mulheres de sua vida: a atriz casada Suzanne Raymond (Charlotte Kady), sua costureira Reine (Maria Pitarresi) e a jovem prostituta Olga (Marie Gillain). Sempre cercado para trabalhar por Greben (Christian Berkel), diretor do Continental, ele se esquiva, alegando compromissos reais e imaginários com outro produtor, o francês Roger Richebé (Olivier Gourmet).O limite deste impasse é resolvido sempre com a mudança da casa de uma mulher para outra, já que Aurenche, por sua recusa e ocasionais explosões de temperamento, teme ser alcançado pelas longas mãos da Gestapo. Um dia, encontra um colega vendendo cadarços na rua e decide aceitar escrever um filme para Greben - o que será apenas uma fachada para entregar o trabalho e o dinheiro ao amigo necessitado.Estendendo-se por quase três horas, o filme detém-se na riqueza de detalhes que emerge da observação direta da vida naqueles dias. Tavernier equilibra as emoções com rara delicadeza, temperando com humor inúmeros percalços do caminho de Devaivre - como sua incrível aventura, de bicicleta, trem, avião militar e helicóptero, para entregar papéis secretos aos aliados ingleses (cujo vício por chá é implacavelmente ironizado).Apoiando-se nas memórias de Devaivre e no próprio convívio com Aurenche (que morreu em 1992 e foi roteirista do primeiro longa de Tavernier, L´Horloge de Saint Paul), o diretor também acentua como a convivência com os alemães não era nenhuma brincadeira. Como demonstra ao recontar o episódio em que o roteirista Charles Spaak (Laurent Schilling), autor de A Grande Ilusão (1937), depois de ser mandado à prisão por supostamente ter roubado documentos alemães (na verdade retirados por Devaivre), é obrigado a terminar o roteiro do filme Les Caves du Majestic - o que ele usa para negociar a vinda diária do cárcere para o set, em troca de comida e cigarros. Ao assumir essa postura, Tavernier contrapõe a caça às bruxas do pós-guerra, colocando em primeiro plano o argumento - contido inclusive numa fala do filme - de que os artistas franceses que trabalharam nos estúdios dos alemães faziam cinema francês, não alemão. E que, ao fazê-lo, de modo geral resistiram como puderam à censura e à degradação do país e, assim, mantiveram viva sua arte. Pode-se aceitar, com reservas ou não, a posição do filme - mas é difícil resistir ao apelo humanista que ele contém.
