Talvez seja um tendência para dramas com fenômenos naturais no título, ou não, mas Chuva de Verão, da neozelandesa Christine Jeffs, tem muito mais em comum com Tempestade de Gelo, de Ang Lee, do que apenas a referência à natureza. Acima de tudo, os dois filmes possuem praticamente a mesma temática: a decadência dos valores da década anterior e as conseqüências disso. No entanto, enquanto Lee é um cineasta amadurecido, com segurança e estilo próprios, Jeffs, vinda da publicidade, estreou no cinema com este longa e ainda parece buscar a sua marca. Talento não lhe falta, mas em seu primeiro trabalho há alguns vícios vindos da linguagem de comerciais que atrapalham o desenvolvimento da narrativa.Nos anos 70, a família de Jane (Alicia Furfold-Weirzbick) , de 13 anos, vai passar as férias de verão na casa de praia construída por seu pai. O casal, que há muito parece ter perdido o interesse mútuo, entra em uma velada crise, piorada com a presença de um fotógrafo com quem a mãe Kate (Sarah Peirse, de Almas Gêmeas) insiste em flertar. Não surge uma paixão avassaladora entre os dois, mas sim um desejo vindo do tédio de suas vidas. A garota, que passa a maior parte do tempo cuidando do irmão pequeno, percebe a troca de olhares, as insinuações, e fica perdida em meio ao casamento que está entrando em colapso. Ela também está numa fase de descoberta de sua sexualidade - o que lembra muito a personagem de Christina Ricci em Tempestade de Gelo. É durante uma das festas dadas por seus pais que Jane trocará o primeiro beijo e terá a confirmação de suas suspeitas em relação à mãe e ao fotógrafo.Em um universo onde as crianças são muito mais responsávies do que os seus pais negligentes e alcoólatras, Chuva de Verão mostra a lenta desintegração de um casamento. No entanto, o filme não explora todo o seu potencial. O excesso de câmera lenta e simbolismo, além de belas imagens, acaba atrapalhando o desenvolvimento da narrativa. Esses cacoetes, das origens publicitárias de Jeff, fazem a forma sobrepor ao conteúdo, evitando que se entre a fundo na ferida emocional dos personagens.Jeff tem tato para captar belas imagens, mas acaba sendo vítima de sua própria poesia, quando exagera nas câmeras lentas e em imagens em preto-e-branco. Para ela, parece ser mais importante mostrar belas limas em super-close do que entrar a fundo nos problemas do casal. Por uma dessas ironias de circuito, o segundo trabalho da diretora, Sylvia -Paixão Além das Palavras, estreou primeiro no Brasil. Com o novo trabalho, ela mostra que, se ainda não superou o seu flerte com o simbolismo e as imagens exageradamente impecáveis, está no caminho certo.
