22/06/2026
Documentário

Rio de Jano

Documentário acompanha o processo de criação de Jano, desenhista francês que recria as paisagens e pessoas no Rio de Janeiro sob um traço bem-humorado.

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Desenhista e quadrinhista de sucesso, o francês Jano - apelido profissional de Jean Le Guay - seguiu a trilha de Jean-Baptiste Debret e outros viajantes do século XIX, curvando-se à beleza do Rio de Janeiro e recriando-a numa visão muito particular.

Se as paisagens do Cristo Redentor, dos Arcos da Lapa e da Ilha da Paquetá permanecem fáceis de reconhecer, o mesmo não acontece com os cariocas. Reinterpretados no traço peculiar de Jano, todos os seres humanos em seus desenhos emergem com rostos de animais: gatos, cachorros, raposas, aves, ursos. Nesse antropomorfismo não entra nenhum demérito. Faz parte do estilo de Jano, que acha, como diz no filme, as feições animais mais expressivas e lhes atribui qualidades positivas. As mulheres bonitas, por exemplo, são sempre representadas como gatas ou raposas.

Mas o que salta mais à atenção no filme é o processo criador do desenhista. Solto nas ruas do Rio, em lugares mais distintos, do morro do Vidigal à pedra de Guaratiba, da Cinelândia ao Arco do Telles, ele se mistura à multidão, como um repórter à procura de notícias. Integra-se à vida cotidiana das pessoas e, caderno de notas sempre à mão, vai esboçando o essencial de cada situação, que ele reproduz com mais apuro depois, no ateliê.

Cadernos de viagem, como esses que ele compôs no Rio, estão se tornando, aliás, uma das especialidades de Jano. Em 1986, ele havia feito um outro, na África, também cheio de sabor e colorido. Mas, em todas essas cenas captadas pelo mundo, Jano com certeza leva consigo a experiência de quadrinhista, autor do famoso personagem Kebra, um rato malandro que se tornou um astro na revista francesa B.D.Rock. O melhor do filme é a documentação deste processo de criação, onde aparece o fino senso de observação do desenhista para notar aspectos que talvez passem despercebidos aos brasileiros. Como a de achar que os cariocas nem parecem habitantes de uma grande cidade, por manterem preservada sua proverbial informalidade e bom humor. Ou notar uma das formas como se expressa o que Jano chama de "culto da bunda", nos manequins das lojas populares de jeans de Madureira, que só têm a parte dos quadris, com os traseiros ostensivamente virados para a rua.

Os diretores deste documentários são três estreantes - os jornalistas Anna Azevedo e Eduardo Souza Lima e a editora de TV e montadora Renata Baldi. Uma primeira viagem que mostra talento para continuar.

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