Este documentário de Caíto Ortiz acerta em cheio na escolha do tema - os motoboys de São Paulo que, a se acreditar nos números colhidos pelo filme, chegam à espantosa cifra de 250.000 pessoas, o que bem pode ser um recorde mundial. Equivale ao tamanho de uma cidade média, uma cidade dentro da metrópole caótica de 17 milhões de habitantes onde o trânsito engarrafado é, infelizmente, uma das características essenciais. Com uma câmera nervosa, Ortiz captura a urgência na vida paulistana que justifica a existência de tantos motoboys, uma população de trabalhadores informais, à margem quase sempre de direitos trabalhistas, quando não da simples carteira de habilitação, sujeitos a condições impraticáveis de trabalho. Que eles, no entanto, procuram desempenhar, entregando jornais, pizzas, documentos, cavando atalhos arriscados entre as filas de carros parados nas ruas intransitáveis. Uma das qualidades do filme é capturar o estado de emergência que é a própria vida de um motoboy - categoria em que o filme sustenta haver três mortes diárias. Ouve, assim, diversos profissionais, quase todos homens, quase todos jovens e mostrando na carne as marcas de muitos acidentes, não raro graves. Prova de que, numa cidade de transporte precário e trânsito impossível, os motoboys são os únicos que não podem mesmo deixar de chegar. Outros sintomas da psique dividida da metrópole são os sentimentos de amor e ódio que seus habitantes dedicam aos motoboys, como revelam vários depoimentos de motoristas que foram vítimas de chutes em portas de automóveis e espelhos arrancados por alguns motoqueiros voadores. Feliz na escolha do tema, o filme poderia deixar mais clara qual a fonte dos espantosos números levantados.
