03/06/2026
Drama

Lugares Comuns

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O cinema argentino comprovou mais uma vez sua ótima forma com este filme, premiado no Festival de Gramado 2003 com o troféu de melhor atriz, na seção latina, para a excelente veterana Mercedes Sampietro. O enredo sintoniza um tema muito sensível para os brasileiros - o sentimento de deslocamento de boa parte da população madura, que se sente expulsa do próprio país pelo desemprego, a falta de perspectivas e a luta por, apesar de tudo, ficar naquela que é, afinal, sua pátria. Essa procura de enraizamento é apenas o ponto de partida para o professor universitário Fernando Robles (Federico Luppi). Aposentado contra a vontade e confrontado com a perspectiva de uma drástica queda em seus rendimentos num país onde a economia mingua a olhos vistos, o velho professor viaja com a mulher, a assistente social Liliana (Mercedes Sampietro) para a Espanha, onde vive seu filho Pedro (Carlos Santamaría).

O refinamento deste roteiro está na forma como usa estes encontros entre os personagens para lançar discussões sobre vários assuntos fundamentais. No caso do filho, o pai o confronta por ter se tornado apenas um burguês acomodado a uma vida mansa como técnico de informática na Espanha, deixando de lado tudo de que gostava, como escrever.

Escrever, aliás, é o que mantém a ligação do protagonista com a lucidez, o grande tema desta história corajosamente adulta. Fernando é um homem que insiste em se manter lúcido, haja o que houver. Ele não procura e não alimenta ilusões e acredita nesta percepção da vida como algo tão banal e sem sentido que não pode ser vivida como uma tragédia. Ele evita a amargura apegando-se a esta sadia consciência do mundo e da vida tais como são e também num amor especial pela mulher de toda a vida. O par formado por Fernando e Liliana é, aliás, um dos mais bem-acabados exemplos de um romantismo lúcido que já se viram no cinema - comparável, embora com vantagens, ao velho casal vivido por Hector Alterio e Norma Aleandro em O Filho da Noiva.

Um grande, belo e grave filme, que ainda por cima consegue discutir as utopias políticas do século que apenas acabou. Não foi à toa que a produção já chegou por aqui ultrapremiada, pelos festivais de Havana, San Sebastian e Fribourg e merecidíssimos prêmios Goya de roteiro e atriz para a magnífica Mercedes Sampietro.

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