20/07/2026
Drama

Queimando ao Vento

post-ex_7
Uma sólida estranheza toma conta do espectador de Queimando ao Vento. Ele logo reconhece que está em território muito distinto de Pão e Tulipas, filme anterior do cineasta italiano Silvio Soldini.

O choque é saudável, porém. Reconhece-se no diretor uma positiva procura de alternância de gêneros, que se conjuga num apuro visual, técnico e no comando da narrativa nos mínimos detalhes. É obra de cineasta maduro, que realiza aqui seu quinto longa-metragem, afinando-se com a decisiva participação de um grupo constante de colaboradores diretos: a roteirista Doriana Leondeff, o diretor de fotografia Luca Bigazzi e o compositor Giovanni Venosta, entre eles.

Tanta segurança sente Soldini nesta direção que não se identifica nenhuma aspereza no trato de uma história não-original (pela primeira vez na carreira do diretor-roteirista) - trata-se da adaptação de um livro, Ontem, da escritora tcheca Agota Kristof. Conta-se a estranha trajetória de Tobias Horvath (o impressionante Ivan Franek), um jovem imigrante tcheco estabelecido na Suíça. Na primeira parte do filme, ele é um protagonista quase não-verbal, massacrado por um cotidiano exasperante, na linha de montagem de uma fábrica. Seu único desabafo está na escrita de diários em que revela uma possante imaginação mas também entrega os sinais de um passado muito incomum.

O "psicologuês" básico da maioria dos filmes está longe de dar conta da complexidade do mundo interior de Tobias que, aliás, adotou o nome de Dalibor Liska, fusão do nome de seu pai e de sua mãe. Há motivos para essa procura de troca de identidade. Tobias/Dalibor é um homem marcado, que ao mesmo tempo procura e foge de suas raízes.

Nem tudo em seu passado é pesadelo, porém. Vem da infância sua melhor fantasia romântica, corporificada na lembrança de Line, a garotinha que dividia a carteira com ele na escola primária - e era também sua meia-irmã. Esta sugestão de incesto é apenas uma pista de como a história pretende explorar os limites do desejo. Um dia, aparece na fábrica uma nova operária, imigrante do leste, e que Dalibor obceca-se por acreditar que seja a Line de sua infância.

A maneira como a narrativa conduz o espectador de encontro à descoberta das informações essenciais sobre os personagens é um dos indícios mais certeiros do quanto o tom deste filme foi acertado. Uma outra qualidade está na riqueza com que retrata o universo dos imigrantes na Suíça, compartilhando de seu sentido de desgarramento, estranheza e esperança. É um filme adulto, sofrido, intenso e que, por tudo isso, não deverá alcançar um público tão extenso quanto Pão e Tulipas, com o qual, aliás, não tem a mais remota semelhança.

post