26/08/2026
Drama

Querido Estranho

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Não é por acaso que a frase de abertura de Ana Karenina, de Leon Tolstói, é citada por um dos personagens de Querido Estranho. Como disse o escritor russo, "as famílias felizes são iguais. As infelizes são infelizes cada uma a sua maneira." A família retratada no filme poderia pertencer à primeira classe, e ser igual a todas, mas com um patricarca tão difícil, cujo principal passatempo é infernizar a vida de quem está por perto, os membros dessa família têm cada um o seu inferno pessoal.

Alberto (Daniel Filho) é o pai que deu tudo aos filhos, exceto amor e carinho. Para ele, bastava pagar as contas. Seu maior defeito é o gênio difícil e o prazer que sente abusando verbal e psicologicamente das pessoas. Quem mais sofreu foram os filhos e a mulher, Roma (Suely Franco), que nunca puderam se livrar dessa figura dominadora.

No dia em que todos se reúnem para celebrar, na falta de outra palavra, o aniversário do patriarca tudo vem à tona. A filha mais velha, Teresa (Ana Beatriz Nogueira), é uma respeitada política, que acaba de dar uma entrevista na TV e não menciona a família - o que deixa todos profundamente magoados. Embora ela aparente ser a que está mais próxima do pai, ainda é vítima de seu desrespeito.

Betinho (Emilio Mello), o único filho, é constantemente humilhado pelo pai porque se casou com uma mulher rica, de uma inculta família de novos-ricos. Mas a maior vítima nesse dia será Zezé (Claudia Netto), a filha balzaquiana e solteirona, que ficará noiva durante o jantar. Assim que fica sabendo do noivado, Alberto começa o seu show particular, dizendo que não entende como alguém se casaria com uma mulher tão velha e inútil. Daí em diante, o dia, a festa, o filme só podem tomar um caminho.

Em Querido Estranho não há espaço para concessões. Os problemas existem, as pessoas são complicadas e raramente há soluções. Naquela família certas questões perduram há anos e jamais serão resolvidas. Em outras palavras, não há espaço para final feliz.

O roteiro é baseado na peça Intensa Magia, da dramaturga Maria Adelaide Amaral (autora de diversas séries para TV, como A Casa das Sete Mulheres e Um Só Coração). Inspirada na própria figura paterna, Maria Adelaide criou um protagonista forte e inesquecível - não por características positivas, mas por causa de sua inteligência e crueldade. O roteiro, escrito pelo diretor Ricardo Pinto e Silva e José Carvalho, encontra em Daniel Filho o intérprete ideal para o personagem.

Injetando uma maldade quase que intrínseca, Daniel Filho faz de Alberto aquele pai que os filhos amam por obrigação. Os filhos também não ficam atrás. Ana Beatriz comprova que é uma das melhores atrizes brasileiras de sua geração, e o quanto foi subaproveitada em O Vestido. Mello foi premiado como melhor ator coadjuvante em Gramado 2002 e faz um Betinho assustado, aquele tipo de homem que cresceu mas ainda é uma criança.

Querido Estranho, é quase um estranho no ninho no cinema brasileiro. Ao lado do recente O Outro Lado da Rua, de Marcos Berstein, o filme aposta numa narrativa mais intimista, centrada nos personagens e seus sentimentos - algo bem comum no cinema argentino. Enfim, nesse filme, mais do que se atuar, vive-se. O que é bem mais do que um espectador exigente pode esperar do cinema.
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