26/08/2026
Drama

Redentor

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O primeiro filme de Cláudio Torres (que antes só dirigiu o episódio Diabólica, do longa Traição, em 1998) corre vários riscos. Inclusive o de não ser assimilado por seu hibridismo. De muitas maneiras, não é um filme convencional. Oscila entre o drama, a comédia, a farsa, o suspense, o comentário sócio-político, mas nunca numa chave realista. Redentor propõe todos estes gêneros sempre um tom acima. Esse é seu mérito e o pecado pelo qual alguns vão apedrejá-lo.

Mesmo sem optar pelo tom realista, o enredo parte de uma situação real: uma família pequeno-burguesa, formada pelo casal Justo (Fernando Torres) e Isaura (Fernanda Montenegro) e o filho Célio Rocha (Pedro Cardoso) e que é destruída pela ganância de um mega-empreendedor imobiliário (José Wilker), não por acaso criado à imagem e semelhança de Sérgio Naya - inspiração essa assumida há anos por Fernanda Torres, que inventou o argumento inicial há seis anos e foi uma das três roteiristas, ao lado do irmão Cláudio Torres e da experiente Elena Soarez (de Eu Tu Eles, outro produto da Conspiração).

A partir dessa típica tragédia brasileira, o filme decola em várias direções: a do jornalista Célio, vítima que acaba traindo o próprio pai, corrompido pelo herdeiro do empreendedor, Otávio Sabóia (Miguel Falabella), e finalmente desvairado por uma fantasia pseudo-religiosa; a dos peões de uma grande obra falida, também credores de Sabóia, e que decidem tomar os apartamentos inacabados com as próprias mãos; a do submundo dos presidiários que se tornarão coadjuvantes na trama, com uma oportunidade aí para se resgatar o talento de atores como Lúcio Mauro, impecável no papel do Tísico.

Atuando em tantas chaves, às quais soma ainda o elemento mais surreal do Cristo Redentor descido do pedestal e falando direto com Célio, não admira que o filme cause perplexidade à primeira vista. O espectador experimenta muitas vezes a mesma dificuldade de trafegar por tantos signos, ainda mais embalado na edição veloz e nos muitos efeitos especiais (ponto alto da produção), que o cidadão brasileiro médio para atravessar seus problemas cotidianos. Há quem enxergue no filme má-fé ou até coisa pior por não aliviar a mão no retrato de pobres e oprimidos - que são vis em várias situações para defender seus interesses, tanto quanto os ricos e a classe média. E nisso, talvez, o filme apresenta seu traço mais realista.

A geração de Cláudio Torres, que não viveu o Cinema Novo nem o amor pela revolução de esquerda, descrê da política e não cultiva a idealização da figura do povo - e também não enxerga soluções. Mas o cineasta não deixa de reservar na paleta de cores sombrias de seu filme um tom mais suave para a grandeza humana de figuras como as de seu Justo e do Tísico. Vindos ambos de classes e situações de vida distintas, os dois são a pista de um amor pela humanidade, pelo homem como medida de todas as coisas, dos dilemas e suas superações, e que é a fresta mínima por onde a história respira.

Redentor é um filme ousado e corajoso. E se não pretende (felizmente) dar a última palavra sobre a questão social, a política e a impunidade no Brasil, também não deixa de apresentar elementos para reflexão sobre tudo isso, sob uma ótica nova. Talvez leve algum tempo mais para digerir tudo o que o filme propõe e como propõe. Mas trata-se de uma saudável sacudida na mesmice, à procura de modernidade e originalidade.

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