18/07/2026
Documentário

Os Doces Bárbaros

post-ex_7
"Tudo ainda é tal e qual e, no entanto, nada é igual". Lembrar dos versos de umas das mais importantes músicas brasileiras é muito oportuno quando as luzes do cinema se acendem depois de uma sessão de Os Doces Bárbaros.

Como hino hippie/tropicalista de (re)tomada de poder, "Os Mais Doces Bárbaros" não apenas evoca um grupo ícone da cultura nacional, mas nos remonta a uma idéia festiva e metafórica de contraste à efervescência política e engajada dos anos 70.

O espectador, paralisado em sua confortável poltrona, tenta digerir as duas horas de música e entrevista que culminam na canção. Afinal, depois de 28 anos da estréia do documentário Os Doces Bárbaros, do diretor Jom Tob Azulay, seu relançamento gera um misto de nostalgia e empolgação naqueles que presenciaram o sucesso do quarteto formado por Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa e Gilberto Gil.

Pelas lentes de Azulay, o espectador é transportado para a turnê nacional realizada pelo grupo em 1976, a mesma que gerou o único álbum do quarteto. Este detalhe é importante, pois os discos ao vivo ainda eram raros na época, e o registro sonoro deficiente era compensado por farto material inédito. Assim, toda a confecção desse trabalho é apresentada para o público por meio do filme.

E lá estão os todos os clássicos do quarteto: "Atiraste uma Pedra", "Pássaro Proibido", a homenagem a Rita Lee "Quando", entre apresentações no Canecão, no Rio de Janeiro, e no Anhembi, em São Paulo. A lista de canções e coreografias emocionantes se completa ainda com "Esotérico" e "Um Índio", para o deleite do espectador.

Música, dança, drogas, álcool, composição, coreografias, tudo, enfim, é captado pelo olhar clínico do diretor em seu polêmico filme. Mesmo a interrupção imprevista, em Florianópolis, quando Gil foi preso, julgado e condenado por porte de maconha - fazendo com que o grupo ficasse um mês sem apresentações -, está na produção, que agora é relançada em versão remasterizada, com cenas inéditas.

A qualidade do som é um trabalho à parte. Depois de um de um ano e meio, o que a princípio era mono, tornou-se, agora, dolby digital (5.1). Uma transformação que garantiu uma qualidade superior à produção, perceptível já nos primeiros minutos de filme. Um investimento obrigatório, ao ser analisado o potencial comercial do filme.

Se em 1976 os Os Doces Bárbaros foram recebidos com críticas pelo tom escapista que adotavam, na contracorrente da resistência da MPB ao regime militar, hoje eles se reencontram nas telas escuras do cinema, divertindo e entretendo um público afeito aos devaneios metalinguísticos de Gilberto Gil e à ferocidade fisionômica e verbal de Bethânia. Caetano e Gal, à parte, fazem coro.
post