21/07/2026
Drama

A Carreira de Suzanne

Dois jovens estudantes parisienses, Bertrand e Guillaume, envolvem-se com uma jovem bela e instável, Suzanne. Estes relacionamentos cruzados põem à prova os limites e contradições de cada um.

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Sua maior vingança é a demonstração de sua própria felicidade. O recado final de Carreira de Suzanne traduz a essência dos seis contos morais de Éric Rohmer, pseudônimo de Jean-Marie Maurice Scherer. Criados a partir de 1962, sob a produção de Les Films de Losange, essas fábulas estão entre os pontos máximos da filmografia do diretor - que em longevidade perde apenas para o português Manoel de Almeida - ao utilizar a cultura francesa como ponto de partida para uma reflexão sobre as relações humanas e a materialização de seus sentimentos.

 

Toda a sutileza do diretor em tratar de um tema tão delicado, que já havia sido demonstrada em A Padeira do Bairro, o primeiro da série, seguiu-se em A Carreira de Suzanne. Rohmer mostrou que sabe como desnudar os personagens, que se confrontam numa aparente liberdade de seus atos, freados por suas exigências morais. Eles se encontram em algum ponto entre a fé cristã e a tentação libertina, e isso, o diretor é clínico ao acusar, sem qualquer mimetismo.

 

Nesta produção, o espectador poderá se deleitar com as ações dos amigos Bertrand (Philippe Beuzen) e Guillaume (Christian Carrière), dois jovens estudantes parisienses às voltas com suas conquistas amorosas e flertes gratuitos. Serão eles a desafiarem a irreverente e emocionalmente instável Suzanne (Catherine Sée), que os perseguirá num ímpeto de paixão e vazio existencial. Enquanto Bertrand não tem qualquer escrúpulo, Guillaume é conivente com os abusos de seu amigo, principalmente com a apaixonada Suzanne. Uma trama simplória, mas que consegue dar ao filme uma boa dose de cinismo e malícia.

 

Injustamente considerado como o menor dos seus contos morais, A Carreira de Suzanne conta uma história em que a indiferença aos reais valores sociais despedaça as crenças dos personagens. Ao se aproveitar de Suzanne, Bertrand torna-se tão baixo quanto Guillaume, que despreza tudo o que vê sem se intrometer. Mesmo assim, a história está longe de um maniqueísmo reducionista, já que Rohmer não poupa ninguém; a própria protagonista trai suas convicções e torna-se tão vil quanto seus companheiros de infortúnio.

 

Um filme que deve ser revisto, principalmente suas críticas mais severas. Pode não ser a obra mestra de Eric Rohmer, mas traduz sua genialidade. E a imperiosa necessidade de afirmação dos personagens propicia o improvável: a felicidade é uma das maiores vinganças.

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