Ironicamente, Marta (a personagem de Mirella) não tinha tanto espaço na primeira versão do roteiro - que foi traduzido em inglês e venceu um prêmio em Sundance, cuja verba serviu para custear metade do orçamento. Tiveram olho clínico os diretores-roteiristas Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, ampliando a participação de Marta no enredo, funcionando como o fiel da balança entre dois irmãos, Herman (Jorge Bolani) e Jacobo (Andrés Pazos).
Jacobo, o mais velho, é um homem taciturno e solitário, apegado obsessivamente a uma rotina imutável, administrando uma pequena fábrica de meias. Marta é sua gerente e, aos seus olhos, quase uma peça da decoração. Há poucas palavras, gestos, olhares. Nesse ritual silencioso, conta-se tudo sobre a aridez emocional destas pessoas, afundadas num tédio mortal.
Rompe a rotina a chegada do irmão mais novo de Jacobo, Herman, que mora há anos no Brasil, onde tem uma outra fábrica de meias. A diferença é que Herman também tem uma família, mulher e filhos. Dando início à que será uma competição muda porém feroz entre os dois irmãos, Herman decide montar uma farsa: pede a Marta que se passe por sua esposa. Só um cego - como Jacobo- não perceberia o alcance do interesse real de Marta por ele. Por isso, não é difícil para ela aceitar alegremente a função de falsa mulher, mudando-se para o apartamento de Jacobo, ao qual consegue dar vida nova com uma providencial redecoração.
Tudo neste relacionamento entre os dois irmãos é rivalidade e ressentimento - a começar pelo fato de que foi Jacobo quem cuidou sozinho da mãe, até a morte desta. Herman não dá sinais de arrependimento e encena também um papel de feliz e bem-sucedido - que ninguém sabe se corresponde à verdade, já que sua mulher e filhos ficaram no Brasil. O duelo não-declarado ganha um inesperado fôlego com a participação de Marta, que demonstra ser bem mais do que a mulher amorfa das primeiras cenas.
Jogando nessa chave de um humor ferino e sutil, acumulando detalhes para criar os climas, numa chave que revisita ao cinema mudo, em especial Buster Keaton, a dupla de cineastas compõem um filme de uma solidez extraordinária. E que consegue tornar-se um paradigma de um país estagnado, que foi ficando obsoleto ao longo dos anos, observando inerte a partida de seus jovens rumo à Espanha (presente mesmo numa cena do filme). Vale a pena não perder.
