21/07/2026
Drama

Sob o Céu do Líbano

Raro exemplar do cinema libanês, premiado no Festival de Veneza/2003, conta a história de Lamia, jovem drusa decidida a desafiar a obrigatoriedade de um casamento arranjado.

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A condição feminina está em evidência neste filme delicado, vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza em 2003. A protagonista é a adolescente Lamia (Flavia Bechara), aos 16 anos, na passagem de menina para mulher. Ainda se diverte empinando pipas com o irmão menor e seus amigos. Mas vive na perigosa fronteira entre o Líbano e Israel, num lugar em que a ocupação israelense dividiu ao meio a comunidade drusa a que pertence.

A identidade dividida marca os drusos, tratados com desconfiança tanto pelos árabes quanto pelos judeus. Como um povo à parte, restam-lhe duas alternativas diante dos dominadores: a assimilação, pois é permitido alistar-se no exército israelense; ou o confronto, mantendo-se fiéis à tradição primitiva. Uma dessas mais caras tradições expressa-se nos casamentos arranjados entre os jovens parentes dos dois lados da fronteira, mediante os quais procura-se manter a unidade dentro do grupo étnico. Uma unidade conseguida à custa de seguir ignorando a vontade desses jovens, casando-se sem nem mesmo se conhecerem.

Este é o destino de Lamia, prometida a um primo do outro lado da fronteira, Samy (Edmond Haddad). Os dois só viram o rosto um do outro através dos filmes trocados pelas famílias - cujas mulheres mais velhas persistem no curioso hábito de comunicar-se com os parentes do outro lado da fronteira através de megafones, aos gritos. Talvez uma tática de provocação às sentinelas israelenses, que se preocupam em anotar tudo o que dizem, procurando nas conversas a pista de alguma mensagem codificada.

Lamia está disposta a desafiar seu destino. Uma clara indicação de seu espírito está nas primeiras imagens do filme, quando ela atravessa o arame farpado da fronteira e um terreno minado apenas para recuperar uma pipa que ficou presa na cerca. Embora aceite se casar, o que acarreta o abandono dos estudos, ao chegar à nova casa ela se obstina numa resistência muda, intimidando o marido e seus parentes e criando um impasse. A rebeldia não é esperada nessa situação, explorada com alguma sensibilidade pela diretora Randa Chahal Sabag.

Apesar da relativa qualidade na condução da trama e dos atores, o filme se ressente como de uma rédea curta, seja na imaginação no trabalho de câmera e no desenvolvimento do roteiro. Não se sabe se a diretora terá moderado o tom para evitar a mão pesada da censura libanesa, que cortou mais da metade de um filme anterior, Civilisées/A Civilized People (1999), ambientado durante a guerra civil, em 1980. Entretanto, é fato que não consegue aprofundar devidamente as questões sociais e políticas que aborda, como faz, por exemplo, A Noiva da Síria, exibido na Mostra BR em São Paulo.

Independentemente desta limitação, a história transmite a contento a repressão dos jovens drusos. Tanto para a rebelde Lamia, quanto para o apaixonado sentinela da fronteira (Maher Bsaibes), continua sendo proibido sonhar.

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