Não é uma visão otimista do futuro. Num tempo próximo e indefinido, o progresso da ciência permite um controle genético estrito - e as pessoas, antes de casar-se, devem estudar sua compatibilidade, para não incorrer no código 46, que nada mais é do que a extrema similitude de gens, que torna desaconselhável uma união. Aventuras são, portanto, extremamente desestimuladas.
Há todo um militarismo moralista na base deste aparente mundo idealmente sadio, em que um Grande Irmão - aqui muito convenientemente chamado de Esfinge - controla a oportunidade de toda e qualquer conjunção carnal. Pessoas que têm casos eventuais não procuram o serviço governamental para ver se são compatíveis. Uma gravidez neste contexto desencadeia uma operação estatal que mexe não só com o corpo, mas também com a memória dos culpados. Não deve restar nenhum sinal da transgressão.
É neste contexto que se delineia uma história de amor, inoportuna desde o início. O investigador William Weld (Tim Robbins) foi chamado a uma empresa para identificar o culpado pela falsificação de passes que permitem a circulação de uma zona a outra no planeta. Não fica claro se os países ainda existem - as línguas, com certeza, misturaram-se num idioma que mescla palavras do inglês, francês, espanhol, italiano, mandarim. Grandes cidades, como Xangai e Seattle, continuam no mapa, formando o núcleo de um mundo extremamente desenvolvido e controlado. Quem está fora dessa região, é um cidadão das periferias do mundo e procura entrar. Alguns dos que estão dentro querem visitar regiões fora do perímetro e, por algum motivo, nem sempre conseguem a permissão. Situação ideal para que falsificadores de passes faturem alto.
Impregnado com um "vírus de empatia", William interroga os empregados da empresa e identifica a culpada em Maria González (Samantha Morton). Mas prefere incriminar um outro funcionário, pois se apaixonou por Maria. Há uma estranheza constante na evolução deste romance, um mal-estar que parte do fato de que as pessoas sempre podem sofrer alterações de seus sentidos - como pelos vírus - e da onipresença dos controles de toda ordem. É um pouco estranho, também, considerar este filme como ficção científica, o que a rigor, não deixa de ser. Parece bem mais uma indagação existencial-futurista em torno da possibilidade de manter a própria individualidade num mundo em que a ciência dominou tudo - e quem aperta os botões está acima de qualquer controle.
