Em entrevistas concedidas à época, Pasolini contou que concebeu o personagem de Stamp como uma espécie de divindade, decididindo depois transformá-lo numa aparição metafórica. "Ele pode ser o demônio ou uma mistura de Deus e do Diabo. O mais importante é que se trata de alguém autêntico e indomável", disse ele à emissora inglesa BBC. Numa outra entrevista, concedida a Lino Peroni, referiu-se ao personagem como "um visitante do Velho Testamento". Não só Pasolini dispunha-se a explicar o que procurava transmitir em seu trabalho - coisa que muitos diretores recusam - como não escondia que procurava inspirações também na liturgia religiosa, o que com certeza só aumentava o escândalo em torno desta e outras de suas obras. Ao mesmo tempo, porém, o iconoclasta foi capaz de arrancar elogios do Vaticano ao realizar o poético O Evangelho Segundo São Mateus (1964).
Apesar de sempre deixar muito claro que não era um homem religioso, Pasolini cultivava uma fascinação pela religião primitiva e popular, fora dos rituais institucionalizados pela igreja. Via nessa religiosidade espontânea, bem como na cultura, formas de busca de purificação pela espécie humana. Assim, em Teorema coloca como contraponto deste mundo da alta sociedade em desagregação o meio camponês e de religiosidade popular - ambiente que o próprio Pasolini, apesar de nascido numa grande cidade, Bolonha, conheceu bem de perto, por opção. Os camponeses no filme são representados por Emilia, que deixa a mansão dos patrões, voltando para sua aldeia e iniciando a partir daí uma existência mística, começando a ser encarada como santa. Mas, politizado e cético, o cineasta não acreditava que nem pela cultura, nem pelo misticismo a humanidade encontraria respostas definitivas às dúvidas que a atormentavam. Teorema foi um dos trabalhos em que traduziu essa ambiguidade em torno do sentido da existência de maneira mais eloquente.
Um aspecto nada desprezível do filme refere-se à demolidora visão que o cineasta alimentava em relação aos burgueses. Teorema trata-se, como o próprio Pasolini assinalou, de seu primeiro filme num meio burguês, com personagens burgueses. Em suas histórias, ele preferiu sempre retratar os sub-proletários, os habitantes das periferias das cidades, como o adolescente Accatone, de seu filme de estréia, Desajuste Social, ou o delinqüente Ettore do inesquecível Mamma Roma (personagem-título que mereceu uma interpretação poderosa de Anna Magnani). Em Teorema, ele mudou o enfoque, não só porque queria mais uma vez manifestar sua declarada repugnância pela alta classe, como também por desejar discutir a noção de que todo mundo estava se tornando pequeno burguês.
Se esta terminologia da época parecer estranha aos tempos menos politizados de hoje, certamente o filme de Pasolini não o será. Poucas vezes Pasolini acreditou tanto nas imagens em detrimento das palavras como neste filme. Ele começou a trabalhar a história de Teorema como uma tragédia em versos. No processo, concluiu que o amor entre o visitante e a família aristocrática se tornaria mais belo se fosse silencioso - aí, fortaleceu-se a idéia de fazer um filme em que, aliás, os ricos falam muito pouco. Para o diretor, este silêncio traduz a idéia de que esta classe não tem nem expressão nem atitudes. Pasolini não era mesmo de meias medidas, na arte ou na vida. Muitos atribuem a este radicalismo pessoal e artístico a responsabilidade pelo mando de sua morte, assassinado na periferia de Roma, a 2 de novembro de 1975.
