19/07/2026
Drama

Sobre Café e Cigarros

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Um novo filme do diretor cult Jim Jarmusch sempre provoca alvoroço. Quando se trata de um projeto rodado em um período de 17 anos, a curiosidade é ainda maior. É isso mesmo: Sobre Café e Cigarros é formado por onze episódios, sendo que o primeiro deles foi realizado em 1986, nos sets das filmagem de Daunbailó - filme que consagrou o diretor.

 

Desde então, Jarmusch veio coletando imagens e conversas descontraídas e bizarras entre o elenco de astros do cinema e da música que participaram dos seus filmes anteriores, para reunir o material em uma única película.

 

Em comum, todos os quadros que compõem o filme foram filmados em preto e branco - com impecável fotografia e contraste - e mostram conversas regadas a café e cigarros. Há sempre uma tomada acima da mesa, que detalha as xícaras de café e os cigarros e cinzeiros.

 

Apesar de alguns episódios apresentarem conversas sobre vícios, a intenção do filme vai muito além da discussão sobre cafeína e nicotina. O título sugere um encontro casual. Um pretexto para os personagens se sentarem lado a lado em uma mesa de bar ou restaurante e ali jogarem conversa fora. Ou tomam café e fumam cigarros como uma praxe ou usam esses artifícios como subterfúgio em situações constrangedoras.

 

No primeiro episódio, encontramos Roberto Benigni e Steven Wright mantendo uma conversa surreal. Benigni (bem antes de se tornar o astro de A Vida é Bela) decide ir ao dentista no lugar de Wright. Em poucos minutos, dá para matar um pouco a saudade do que era ver esses dois contracenando no fabuloso Daunbailó. Em seguida, estão os irmãos Joie Lee e Cinqué Lee discutindo com o garçon (Steve Buscemi) a possibilidade de Elvis Presley ter um irmão gêmeo.

 

Daí para a frente, a presença de astros em conversas absurdas não pára: Iggy Pop e Tom Waits; Joe Rigano e Vinny Vella; Bill Rice e Taylor Mead são alguns deles. Merecem destaque os episódios intitulados Primas, em que Cate Blanchett interpreta, a si mesma e uma prima pobre, com ótimos recursos cinematográficos, e Primos, em que Alfred Molina tem um encontro com Steve Coogan e o deixa em situação bastante embaraçosa. Todavia, um dos pontos mais prazerosos está no quadro Delírio, em que os rappers GZA e RZA deparam-se com o carismático Bill Murray trabalhando como garçom de um restaurante.

 

Sobre Café e Cigarros não é um filme com seqüência lógica e ação. Vale pelos preciosos pedaços, espaçados ao longo da filmografia de Jarmusch. Se existe uma grande distância entre as produções Estranhos no Paraíso e Daunbailó, da década de 80, e The Dead Man e Ghost Dog, da década de 90, Sobre Café e Cigarros revela a lealdade para com a proposta do seu trabalho independente. Passados todos esses anos, Jarmusch não se rendeu às tentações do cinemão americano.

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