Clássico russo de 1925, símbolo das possibilidades dramáticas da montagem cinematográfica, o filme de Sergei Eisenstein (1898-1948) é um desses títulos que não pode faltar na bagagem de nenhum cinéfilo digno desse nome. Encomendada pelo governo soviético para comemorar os 20 anos do levante de Odessa, a obra ultrapassou a intenção didática de despertar o fervor revolucionário para constituir um dos maiores filmes já feitos no cinema. E também um modelo para imitações e homenagens, uma das mais conhecidas a seqüência da escadaria em Os Intocáveis (1987), de Brian De Palma, que por sua vez repete um dos momentos mais emocionantes do original, quando um carrinho de bebê despenca, desgovernado, pelos degraus diante do porto de Odessa.
O 55o Festival de Berlim, em fevereiro de 2005, exibiu uma cópia restaurada, que restituiu cenas cortadas por antigos governos soviéticos. Mesmo sendo uma encomenda oficial, O Encouraçado Potemkin revelou-se, antes de mais nada, um chamado à rebelião e à liberdade, desagradando ao ditador Stálin, que chegou a proibir o filme. Em Berlim, foi recolocada a introdução escrita de Leon Trotsky, que figurou na estréia, há mais de 80 anos. Quando Trotsky caiu em desgraça com o regime estalinista, suas palavras foram substituídas por um texto de Lênin, pai da Revolução Russa.
Fora da URSS, o filme também foi proibido, sob o mesmo argumento de caráter subversivo – nos EUA, na França (onde foram queimadas todas as cópias que se puderam encontrar), na Inglaterra (onde por muito tempo o filme só circulou em clubes) e na Alemanha.
Por enquanto, não chegou ao Brasil esta cópia restaurada. Mas a versão em circulação por aqui guarda praticamente tudo o que faz do filme um clássico. Conta-se a história de um motim a bordo do encouraçado Potemkin, que voltava do Japão, em 1905. Instala-se um motim a bordo, devido às péssimas condições e à escassez mesmo de comida. A população da cidade ucraniana de Odessa, o porto que lhe está próximo, cansada da opressão do regime czarista, solidariza-se com os amotinados, enviando-lhes água e comida em barcos.
Não tarda que o exército do czar se mobilize para sufocar a rebelião popular, atirando abertamente contra a população civil que se aglomera nas ruas e nas escadarias diante do porto. A seqüência mais dramática ocorre nestes degraus, onde caem os mortos e os vivos e feridos tentam desesperadamente escapar. Uma mãe tenta proteger o filho, mas o carrinho do bebê despenca escada abaixo, fora de controle. Alternando closes dos olhos, dos rostos, dos soldados, das armas, Eisenstein constrói uma narrativa dramática arrepiante.
Outro momento exemplar da montagem acompanha a aproximação de outro navio de guerra, que vem combater os amotinados do Potemkin. Mas, no último minuto, a reação das tropas do navio é diferente do que esperaria o czar.
Para se ter uma idéia do significado da inovação trazida pelo método de Eisenstein, basta comparar estes números: O Encouraçado Potemkin tem 1.346 fotogramas em quase 80 minutos de filme, enquanto num filme qualquer em 1926 a média era não ultrapassava 600 fotogramas em 90 minutos, numa época em que o cinema engatinhava (ainda era mudo) e não raro, parecia teatro filmado, com câmera estática e longos planos. Ao potencializar a montagem desta maneira, Eisenstein revolucionou a linguagem cinematográfica e permanece como um dos mestres incontestes, acima de qualquer ideologia.
