Nos anos 80, a guerra civil estourou em El Salvador. Chava é um menino que mora num vilarejo que fica no fogo cruzado entre o exército e os guerrilheiros. Quando seu pai vai embora, suas responsabilidades aumentam. Para piorar, há o medo de o exército recrutá-lo quando completar 12 anos. Em meio a esse caos, o garoto será obrigado a se tornar adulto.
- Por Alysson Oliveira
- 07/04/2005
- Tempo de leitura 2 minutos
Com Vozes Inocentes, o cineasta mexicano Luis Mandoki volta às suas origens – fazendo cinema na América Latina- e deixa de lado o padrão e a temática hollywoodiana de suas últimas produções, como Encurralada (2002) e Olhar de Anjo (2001). Agora, ele volta suas lentes para a Guerra Civil em El Salvador nos anos 80, que deixou mais de 75 mil mortos, 8 mil desaparecidos e tantos outros exilados. É o retorno do diretor ao mundo sul-americano 17 anos depois de seu premiado Gaby: Uma História Verdadeira.
No entanto, esse gesto tão nobre acaba caindo no inferno cinematográfico – indo parar direto naquela vala comum das boas intenções. O roteiro é livremente baseado na vida do roteirista Oscar Orlando, que co-escreveu Vozes Inocentes com o diretor. Embora o resultado seja bem mais importante e interessante do que qualquer coisa que Mandoki fez em território gringo, o longa padece de um excesso de auto-indulgência e espalha durante as suas duas horas a maior parte dos clichês que costumam aparecer no gênero.
A necessidade de querer emocionar provoca excessos de close e câmeras lentas. Num momento bem parecido com uma das cenas mais desconfortáveis e tocantes de Cidade de Deus (2001), Mandoki não hesita em usar uma câmera lenta e tentar buscar o choro de sua platéia. Porém, diferente do brasileiro Fernando Meireiles, o mexicano não busca a urgência de retratar o caos de uma guerra civil – no caso dele, uma declarada, enquanto a brasileira era velada. Ainda no terreno dos filmes latinos, Vozes Inocentes pode ser uma versão mais ‘pesada’ do ótimo Machuca - mas com seus excessos acaba não tendo a mesma eficiência do filme chileno.
É em meio à guerra civil que o pequeno Chava (o estreante Carlos Padilla) se tornará um homem, numa espécie de rito de passagem precoce e forçado. Quando seu pai abandona a família, ele se torna o ‘homem da casa’ para cuidar de sua mãe Kella (Leonor Varela) e dos dois irmãos menores. A aldeia onde moram fica bem no meio do fogo cruzado entre o exército e guerrilheiros.
Mais do que se preocupar em proteger da troca de tiros, Chava teme ser recrutado pelo exército, que pega garotos de 12 anos para treiná-los. Em meio a esse ambiente totalmente hostil, o menino é forçado a se tornar homem, mas ainda tenta manter os traços de sua infância. Numa situação naturalmente paradoxal, que poderia trazer para a tela um certo lirismo amargo, os roteiristas sempre optam pelo óbvio em prol de um cinema lagrimoso e ineficaz.
O caos da guerra acaba se diluindo à medida que Vozes Inocentes se torna menos coeso e mais calcado nos episódios. Lá pela sexta vez que Chava consegue fugir do exército, é impossível não ter a sensação de que o filme está se tornando repetitivo. A trilha sonora do músico brasileiro André Abujamra (1,99 - Um Supermercado Que Vende Palavras) também fica meio perdida em meio ao mar de lágrimas.
O excesso de sentimentalismo faz de Vozes Inocentes uma investida frágil, num assunto sério e complexo. Mandoki não consegue ser sutil e só enfraquece o que ele pensa ser uma denúncia dos horrores da guerra.
