A luta armada dos anos 1970 ganha cada vez mais espaço nas telas dos cinemas. Depois do ótimo Quase Dois Irmãos, de Lúcia Murat, chega Cabra Cega, do diretor paulista Toni Venturi (Latitude Zero). O drama foi um dos mais premiados Festival de Brasília 2004, levando a estatueta de melhor filme (júri popular), ator (Leonardo Medeiros), roteiro, direção de arte e pesquisa histórica.
O roteiro surgiu de uma idéia original do cineasta Roberto Moreira (diretor de Contra Todos) e de certa forma mostra a luta armada de fora para dentro. Diferente daqueles filmes que retratam guerrilheiros pegando em armas e indo para a ação – algo que se tentou fazer sem sucesso em O que é isso, Companheiro? (1997) –, Cabra Cega focaliza um jovem guerrilheiro confinado a um apartamento de classe média em São Paulo.
Ferido num confronto contra a polícia, Tiago (Leonardo Medeiros) é obrigado a se refugiar no apartamento de Pedro (Michel Bercovitch), um simpatizante. O único contato do guerrilheiro com o mundo é a jovem Rosa (Débora Duboc) que além de cuidar dos ferimentos dele, leva e traz alimentos e instruções do veterano Matheus (Jonas Bloch).
Isolado e impossibilitado de sair para a luta, Tiago começa a ficar angustiado e paranóico, com medo de qualquer barulho. O guerrilheiro é obrigado a fazer daquele pequeno apartamento o seu mundo – e dividi-lo com o dono e as visitas de Rosa, além de esquivar-se da curiosidade da vizinha bisbilhoteira. Com esses elementos mínimos, Venturi cria um poderoso drama intimista que mostra um detalhe das entranhas da guerrilha.
Humanizando os seus personagens – em oposição ao surrado estereótipo do guerrilheiro – diretor e roteirista (Di Moretti)investigam com muita competência os desejos e ansiedades de uma parcela da população que pegou em armas e combateu a ditadura nos anos 1970. Usando a parte pelo todo, é traçado um painel daquela época, ilustrado por acontecimentos do mundo real que se refletem no confinamento de Tiago.
Ainda assim, Cabra Cega não teme tocar na ferida do fracasso da utopia daquela geração, que culminou com a morte de Che Guevara, na Bolívia. Desta forma, o filme faz um complexo e interessante diálogo com Quase Dois Irmãos. Enquanto o segundo mostra o reflexo do fracasso desta utopia nos dias atuais, Cabra Cega avalia de forma sutil como aquela época repercute na vida dos jovens de hoje, que nem sequer a viveram. Exemplo disso é o sucesso estrondoso que o filme fez com o público jovem em festivais que participou no Brasil, como o de Brasília, onde foi aplaudido de pé por uma platéia em sua maioria composta por universitários. Ou mesmo no Rio de Janeiro, quando foi exibido em 31 de março (um dia antes do aniversário do golpe militar) no Cine Odeon lotado.
O retrato da época não está apenas na ideologia ou nos personagens. Mas Cabra Cega desloca a sua platéia no tempo e no espaço, principalmente por conta de uma bela trilha sonora com canções emblemáticas dos anos 1970 – várias delas interpretadas por Fernanda Porto. Alguns dos momentos mais marcantes são iluminados por estas canções. Como quando um ônibus é revistado por militares ao som de Teletema ou a cena final ao som de Roda Viva.
Mas certamente, o momento mais poético e bonito de Cabra Cega tem ao fundo a versão original de Eu Quero Botar Meu Bloco na Rua, de Sérgio Sampaio. É uma cena em que a claustrofobia do apartamento dá lugar a uma explosão de esperança e sentimentos, quando Tiago quer, literalmente, abraçar o mundo.
