Com roteiro do próprio Goldenberg e Rosane Lima, Bendito Fruto rompe uma espécie de círculo vicioso das comédias recentes do cinema brasileiro, diversificando o gênero ao compor um filme de classe média em que os personagens parecem realmente de carne e osso e fugindo aos muitos estereótipos da comédia televisiva que aposta num humor ralo e, não raro, com piadas de baixo nível – como Sexo, Amor e Traição e Avassaladoras.
Melhor ainda, a comédia de Goldenberg não só foge a esse formato televisivo, mostrando amplos planos do Rio de Janeiro e uma fotografia realmente cinematográfica, como até satiriza as novelas, embora não conteste o inegável amor que o público brasileiro tem por elas.
A dramaturgia esquemática e adocicada das novelas, aliás, forma um delicioso contraponto da trama. Todos os personagens do filme adoram assisti-las, sonhando com o romance complicado do galã (Eduardo Moscovis) com duas gêmeas.
A família central de Bendito Fruto, porém, é formada pelo cabeleireiro Edgar (Otávio Augusto), sua empregada (Zezeh Barbosa) que é na verdade sua mulher, sem que ele queira assumir o caso. Os dois têm um filho que mora na Espanha e que não sabe que Edgar é seu verdadeiro pai. Para complicar, aparece na vida de Edgar uma velha colega de colégio (Vera Holtz), agora viúva e disposta a tudo por uma nova paixão.
O ponto forte de Bendito Fruto é somar a esse triângulo amoroso ingredientes mais polêmicos, como menções ao racismo envergonhado da sociedade brasileira e ao homossexualismo. Tocando nestes assuntos com leveza, mas sem concessões, a comédia mostra que é possível ser inteligente e popular sem cair no grotesco.
