O primeiro deles é a escolha do ator galês Christian Bale. Tendo demonstrado generosamente sua versatilidade numa carreira iniciada ainda na infância, decolando para a fama em O Império do Sol, de Steven Spielberg, e passando por desafios como o insano yuppie de Psicopata Americano e o protagonista magérrimo e atormentado de O Operário, Bale encontra a chave certa. Reabilita o carisma do personagem em cuja pele já entraram, com graus diferentes de sucesso, Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney. Bale é totalmente convincente para viver o herói em formação, que passa da felicidade de uma infância protegida, rica e feliz para o trauma da culpa pelo assassinato dos pais, depois de um inocente pedido do menino Bruce Wayne.
A culpa, por sua vez, é o motor da juventude transviada e da rebeldia fora de foco, movida pelo desejo de vingança e a inconsciência dos próprios limites. Período a que se segue a derrocada, a prisão e a descoberta da possibilidade de redenção pelo treinamento com um mentor misterioso (Liam Neeson) que, no seu devido tempo, dirá a que veio.
Sem esse acerto no protagonista, de nada adiantaria a competência do roteiro, assinado por Nolan e David S. Goyer (que já adaptou Blade, O Corvo, A Cidade dos Anjos e Cidade das Sombras, todas inspiradas em quadrinhos). Christian Bale, aliás, encontra bons apoios no restante do elenco: a namoradinha inteligente e valentona, promotora Rachel Dawes (Katie Holmes); os fiéis escudeiros Alfred (Michael Caine), o mordomo que cuida de tudo, e Lucius Fox (Morgan Freeman), o inventor capaz de colocar em funcionamento uma série de invenções de ponta de fazer inveja a qualquer James Bond, começando pelo indispensável Batmóvel. Não se pode esquecer também do último policial honesto de Gotham City, James Gordon, interpretado por ninguém menos do que Gary Oldman. O histórico vilão de tantos filmes aqui afina o tom e faz uma boa dupla com Batman.
A fórmula não funcionaria sem a presença de vilões qualificados: Ra´s al Ghul (Ken Watanabe), Carmine Falcone (Tom Wilkinson), Jonathan Crane (Cillian Murphy) e Richard Earle (Rutger Hauer, ressurgindo com força). Eles são bem mais unilaterais do que o protagonista, mas isso faz parte do jogo. Num mundo real cujas semelhanças com Gotham City parecem aumentar cada vez mais, é bom que se tenha ao menos esse conforto de poder confiar nas regras da ficção, em que o bem é sempre melhor e mais forte do que o mal.
No quesito adrenalina, o filme igualmente não deve decepcionar. São eletrizantes as seqüências de formação do herói na cadeia; seu duro treinamento em lutas diversas, no cenário emblemático da Islândia; seus pegas aéreos com os vilões, um deles numa linha aérea de metrô, bem como a explicação sobre a simbologia do morcego, que tem a ver com uma fobia, habilmente revertida pelo herói.
