Em nenhum momento, Corações e Mentes nega seu engajamento contra o conflito na Indochina, que consumiu décadas e milhões de vidas, até um final melancólico e sem vitoriosos, em 1973. Imagem por imagem, depoimento por depoimento, o filme de Peter Davis constrói a crônica consistente de uma guerra estúpida, do exercício cruel, violento e, em última análise, inútil, de uma visão geopolítica que começara com o presidente Harry Truman, em 1945, arrastando-se até 1975, na era Nixon.
Não admira que, na época de seu lançamento, em 1974 – adiado por um ano, por temor da distribuidora original, a Columbia – tenha havido tanto barulho. O filme é a mais consistente autópsia do sonho americano, da ilusão da superpotência salvadora, entregando em seu lugar o retrato de uma nação imperialista que perdeu sua alma, dilapidando os ideais originais de seus fundadores. Uma autocrítica tão dolorosa era demais para muita gente agüentar. Na noite da premiação do Oscar, depois de um discurso inflamado do produtor Bert Schneider, dois apresentadores do Oscar, Frank Sinatra e Bob Hope (que aparece no filme, aliás) não suportaram. Obtiveram do produtor Howard Koch a autorização de escrever rapidamente uma nota desautorizando a politização da premiação, lida por Sinatra ao microfone – apesar de um pedido em contrário da atriz Shirley MacLaine.
As duas cenas do documentário que viraram símbolo antiguerra são mesmo aterradoras. Uma delas mostra a execução, à queima-roupa, de um suspeito vietcongue, com um tiro na cabeça. A outra exibe as imagens de crianças vietnamitas nuas, cujas roupas e a própria pele foram queimadas pelo napalm jogado pelos aviões americanos. Quase todo mundo já viu fotos dessas cenas. Mas sua imagem em movimento tem uma força incomparavelmente superior.
Vários políticos e ex-combatentes elaboram os dois lados da história, os pontos de vista de quem defende a utilidade e até o heroísmo da guerra e de quem duvida de sua validade. Nesse sentido, são exemplares depoimentos como o de um ex-piloto americano, que confessa que não pensava no que ocorria lá embaixo, depois de sua passagem jogando bombas. Duas das melhores manifestações vêm de camponeses vietnamitas. Um deles, um velhinho que constrói rústicos caixões, garantia: “Vocês americanos jamais vencerão esta guerra”. Como não venceram, apesar do discurso em contrário das fontes oficiais. O outro é um pai desesperado pela morte da filha de 8 anos num bombardeio, que quer mandar para o então presidente Richard Nixon a blusinha da menina, lembrando que ela jamais vestirá novamente. Mas a definição mesmo do filme vem na sentida autocrítica do americano Daniel Ellsworth: “Nós não estávamos do lado errado. Nós éramos o lado errado”.
A montagem é a mais eficiente arma de Corações e Mentes para a construção de sua tese. Assim é que alterna cenas do sepultamento de um jovem pai de família, pranteado com desespero pela viúva e o filho, com declarações racistas de um dos comandantes americanos, o general Westmoreland, assegurando que os “orientais não têm o mesmo apego pela vida que os ocidentais”.
Corações e Mentes acaba se tornando uma prequel para Farenheit 11 de Setembro, de Michael Moore - sem que nenhum dos envolvidos pudesse tê-lo previsto. Colocar ambos os filmes lado a lado só confirma a continuação de uma geopolítica imperialista americana, que semeia guerras pelo mundo em nome de mitos que custam vidas demais para que alguém possa não se importar.
