Nascido na Argélia, Gatlif foi ainda adolescente para a França, onde passava seus dias em instituições correcionais parisienses. O cinema, aqui, é, tal como para Truffaut, uma saída da marginalidade e uma forma de refletir um contexto social de que ele mesmo participa. Muito embora não seja um diretor panfletário, o fato de colocar em suas obras protagonistas nômades, sempre em busca de raízes, é, sim, um sinal de direcionamento.
Assim, não é de se estranhar que os personagens de Exílios sejam um casal de jovens parisienses (Zano e Naïma) que empreendem uma viagem para a Argélia, país do qual seus pais tiveram de fugir. Como um desafio e com a música como a única bagagem, estes filhos do exílio se enriquecem com a cultura cigana do sul da Espanha e com os diversos muçulmanos que encontram pelo caminho a partir da Andaluzia.
No desenrolar da história, Gatlif consegue uma original cenografia, dotada de uma agressiva planificação e áspera fotografia. Tudo bastante dependente de uma trilha sonora que evolui caoticamente ao som flamenco e árabe. Ela é parte da viagem, apontada freneticamente como continuação dos diálogos. Os protagonistas, afinal, são suas músicas, compostas pelo próprio diretor e por Delphine Mantoulet.
No entanto, a qualidade bastante formal apresentada por Gatlif está a serviço de personagens excessivos e herméticos. As motivações do casal não ficam de modo algum claras para o público, que, no fim, acaba por interpretar a sua vontade. Aí, imagina-se, caiba uma identificação do espectador com a história de vida do casal.
No final da sessão, é clara a impressão de que o diretor passa na ponta dos pés pelas reflexões sociais e morais que sua história mostra. O uso exploratório de mão-de-obra imigrante na Espanha ou mesmo o tratamento dispensado às mulheres no mundo árabe são questões abertas em que ninguém na tela parece querer se envolver. O que se faz é um difuso clamor pela tolerância e miscigenação na qual a música é um fio condutor para a solidariedade.
