Os donos da cena são os irmãos Damian (Alex Etel), de 7 anos, e seu irmão, Anthony (Lewis McGibbon), de 10. Os dois se mudam para uma nova casa no subúrbio depois da morte da mãe (Jane Hogarth) e tentam levar a vida do melhor jeito, ao lado do pai, Ronnie (James Nesbitt). Damian é perito em vidas de santos e não hesita em desfiar suas biografias, não raro tenebrosas, diante do primeiro espectador que se apresentar – como seus espantados coleguinhas da escola primária, que fogem dele como o diabo da cruz.
Acontece que Damian não só estuda as vidas dos santos – ele os “vê”, realmente. Nessas conversas imaginárias estão algumas das melhores cenas, cheias de humor na caracterização destes santos (todos bem esquisitões, na verdade), mas sem perder o foco da luminosa imaginação e inocência do garotinho.
Pois num destes dias em que conversa com seus santos, dentro de uma casa de papelão que construiu ao lado da linha do trem, Damian ganha um presente que cai, literalmente, do céu: uma sacola contendo a bolada de 265.000 libras esterlinas. O menino acha que o presente vem de Deus. O irmão convence-o a manter segredo da verba extra. A partir daí, cada um vai dar ao dinheiro o uso mais de acordo com as próprias convicções. O pragmático Anthony, acumulando novos bens, como aparelhinhos eletrônicos, e pagando colegas para levá-lo à escola de bicicleta e carregar seu material. O angelical Damian, fazendo caridade anônima com os vizinhos pobretões e levando uma turma de sem-teto para um banquete numa pizzaria.
Como aqui é o reino da fábula, nada pode dar errado – apesar da presença ameaçadora de um ladrão que jogou a mala e a quer de volta (Christopher Fulford). Haverá um momento, é claro, em que será impossível manter os adultos fora do segredo, especialmente porque há uma data-limite para desfrutar das libras – dentro em breve, elas perderão o valor para o euro e deverão ser trocadas com mais rapidez do que as duas crianças podem dar conta.
A boa sacada é que, mesmo se tratando de um filme feito de encomenda para todo mundo rir e se sentir bem, nunca se escamoteia a solidão do menino Damian, nem sua dor na perda da mãe. Não é uma visão rósea da infância, mas também não é cínica a ponto de perder de vista a fantasia de sua idade. Bem ao contrário: o filme todo se lambuza do humor e da imaginação dos seus meninos e leva a maioria do público junto.
O roteirista Frank Bryce tem sete filhos. Talvez isto explique o segredo.
